segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Banco de Textos - Jô Bilac

Jô Bilac

TEXTOS



Primeira Classe

Mariele Moon

Aeromoça

( Vôo Milão \ Rio de Janeiro. Primeira classe. Mariele Monn, figurinha tarimbada nas altas rodinhas sociais, sempre acompanhada de sua taça de prosecco.)

Aeromoça: (naquele tom tédio-sexy que só as aeromoças tem) ...Olá Senhores passageiros da Primeira classe, bem vindos ao Boeing 666 da Flã Boiã Linhas aéreas Milão com destino ao Rio De Janeiro. Esta aeronave conta com 8 saídas de emergência assim localizadas: duas portas dianteiras, quatro janelas sobre as asas e duas portas traseiras. Em caso de despressurizaçao, máscaras de oxigênio cairão sobre suas cadeiras, puxe o elástico e posicione a máscara sobre a boca e o nariz respirando normalmente. Em caso do “Salve-se quem puder”, os senhores da primeira classe contam com o privilégio de um bote exclusivo acompanhado por um lindo colete salva vidas desenhado por Yves Saint Laurent. Ao longo do vôo será servida uma entrada com crustáceos salpicados com ervas finas, acompanhado por baguetes francesas gergelinadas, dando o prenúncio do prato principal batizado por nosso mestre cuca como “Crepúsculo dourado sobre o mar de Nefertiti”. É peixe, gente. Eu sou a comissária Vanessa, acesse o site WWW ponto Vanessa eu sei o que você quer ponto com ponto BR e adquira mais informações. A Flã Boiã agradece pela preferência e deseja a todos uma boa viagem.

(segue para a classe econômica)

Aeromoça: Olá senhores passageiros da classe econômica. (muda o tom) O negócio é o seguinte, cambada, não é pra levar o fone de ouvido pra casa não, hein! Eu sei quantos tem! Acabou de ouvir a musiquinha devolve o fone pro saquinho. E se tirar onda com a minha cara, vai ser esculachado. Se o avião cair, se liga, meu irmão, cada um por si. Ninguém é de ninguém. Tem maisena no almoço e coca dois litros pra dividir em grupos de oito. Então, vamos usar o bom senso, certo? Olho grande não entra na china, certo? Pra relaxar tem um filminho. Olha que coisa boa pra distrair a fome. Geral vai poder ver. Vai passar “Corra que a policia vem aí”. O que foi? Não gostaram do filme? É muita realidade na veia? Se não gostou fecha o olho e dorme. Eu sou a comissária Vanessa e etc etc etc , é isso aí.

Mariele: (vinda da primeira classe, sempre acompanhada com sua taça de prosecco e seu casaco de pele) Oi, oi...Olá, mocinha, será que posso dar uma palavrinha com a classe econômica? Coisa rápida. Não quero atrapalhar...

Aeromoça: (educada) Imagina. Fique a vontade. A senhora quer luvas e máscara para evitar contato direto?

Mariele: Obrigada, mon biju! Mas eu gosto desse tete a tete com o povo. Gosto de correr riscos, essa é a minha natureza indomável, fazer o que...?

Aeromoça: Ok, só aconselho a senhora não se aproximar muito...esse povo nunca viu jóia, sabe como é... (gesticulando sinal de roubo) Aqui é terra de mallboro. Qualquer coisa é só gritar. Com licença. (sai)

Mariele: Olá Classe econômica, desculpa interromper o conforto da viagem dos senhores, mas eu podia estar roubando, eu podia estar matando, sim porque sou milionária e jamais seria presa. Mas estou aqui com vocês, com toda humildade, pedindo um pouco de atenção. Eu sou Marielle Moon e venho cá por conta de uma angustia que fui tomada agora a pouco e domina todo o meu ser... Estava eu, com a minha amiga Liége, amiga bárbara, sempre presente na lista das dez mais, então , estávamos aqui na primeira classe... E entre um coquetel de frutas vermelhas e outro, falei: “Liége, a gente precisa fazer alguma coisa pelo povo. Liége, não adianta passar férias em Sarajevo, ou comprar um terreno no Quênia, é preciso mais! Entende o que eu quero dizer? O povo merece mais.” Daí, Liége, apesar das suas 47 plásticas faciais, esboçou uma reação curiosa e me perguntou: “Marielle, o que você quer realmente?” Ora. Ora, ora. O que eu quero? Como assim cara pálida? A pergunta é: o que o povo quer! Sou do povo e para o povo. Porque é o povo que faz e acontece, entendeu? Mas eu vou egixir...egigir... exigir isso de Liége? Não vou, cara... Não adianta. Não vou mesmo. Entende onde eu quero chegar? Tá acompanhando meu raciocínio? Então... O povo é um cavalo indomável de puro sangue em busca da eterna linha de chegada. Pessoas como eu, Liége, Paris... Enfim, mulheres como nós que vivem em um mundo paralelo, não sabe o que o povo quer! Gente! Estamos num mesmo vôo, separados por uma cortininha de chambre! Poderia ser tafetá/ Poderia, mas é chambre. Entende? Se essa budega cai, morre eu, morre tu, morre a nossa Capitu e acabou-se. Dessa vida não se leva nada. Um alfinete. Um brihante, nada gente. Então, já que os jovens ingleses subiram a favela e conheceram de perto a realidade, eu venho aqui, na classe econômica, olhar olho no olho, de cada um de vocês e ver realmente o que o povo quer. Me lembro agora daquela passagem bíblica, clássica, coríntios capitulo 11 versículo 5: onde Jesus diz aos seus discípulos “ a gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro, diversão, balé.” E é justamente por isso que venho aqui, sortear essas entradas para o balé russo Mikail Kurbinova, uma coisa bárbara e efêmera, 20 bichas louquíssimas, bárbaras, pra cima e pra baixo, concentradíssimas, coisa de primeiro mundo. To aqui, doando para quem quiser ir ver, duas entradas, balcão nobre, papa fina. E não é porque você é pobre que não pode ter acesso. Que isso? Pobre não tem direito? Vamos dar acesso ao povo! Sim, balé russo sim. O cidadão é obrigado a viver na base do pagode? O cidadão é obrigado viver na base do 434 seis horas da tarde engarrafado na presidente Vargas? Na base do churros e da pipoca vermelha dada em são Cosme e Damião? Não, gente!!! Isso não é justo!!!! É preciso lutar por seus direitos!!! Não pode! Não pode deixar de conhecer o salão de chá em Sant Cecile na Alemanha oriental. Não pode deixar de fazer um passeio de helicóptero pelas ilhas Malvinas. Não pode deixar de experimentar o tão elementar, eu diria, sim porque não?, o trivial escargot ao creme de papaia flambado no whisky 15 anos. Não pode! Gente, eu estou falando de necessidades básicas!!! O Tati me Tati! É preciso agir! Não estou falando de subir em favelas, como os inglesinhos fizeram, porque eu infelizmente, sofro do vício do salto alto e fica realmente difícil subir nas comunidades e pegar amizade e tal. Mas, vamos começar a visitar a classe econômica e isso já é um passo dos grandes! Sim! A mistura das classes começa aqui. Por conta disso, estabelecemos, Liége e eu, a livre doação pra turma do fundão. Turma do fundão, no caso, vocês. São doações, mimos, coisinhas. Sim, porque somos volúveis, ricas e aplacamos nossas carências não só em noites selvagens de bebedeira e sexo, como também em um consumo desenfreado de produtos que não nos servem pra nada. E por conta disso, tenho aqui, os convites para o balé Russo, com o inconveniente de ser na Rússia, mas se vocês ao invés de encher os córneos de cerveja, juntar daqui e juntar dali, acaba enchendo o papo da galinha e compra uma passagem pra Moscou. Passa um fim de semana bárbaro e...

Aeromoça: Desculpe interrompê-la senhora...

Marielle: Imagina, querida, estava aqui com seus irmãos, distribuindo pérolas.

Aeromoça: É que a Madame Liége perguntou se a senhora não vai participar do bingo da Paris.

Marielle: Ta valendo o que? Porque se for o royce royce da Paris, nem adianta que não vou me abalar daqui por mixaria! Detesto gente muquirana! E também esse negócio de original do Picasso, do Monet, ih...tá brega! Não gosto desse negócio de quadro, não serve pra nada! Prefiro ficar aqui , não é gente? Trocando essa idéia, essa energia...

Aeromoça: Madame Liége disse que o bingo vale um escravo anão.

Marielle: Um escravo anão! Que bárbaro! Será que ele fala mandarim? Eu estou tão precisada de um escravo anão que fale mandarim...

Aeromoça: Isso realmente, só perguntando a Madame Liége.

Marielle: Hum... Ta bom. (volta aos passageiros) Ai gente, que chato, tenho que ir... Poxa... Mas depois a gente retoma o nosso papo. Eu sinto que hoje, um grande passo foi dado na história da humanidade. E que esse dia histórico será o inicio de uma amizade doce e sincera. Vou deixar os convites aqui com a mocinha e ela repassa, enfim... Abaixo a cortinha de chambre e viva o intercâmbio de classes!

Fim

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A MULHER QUE EQUILIBRAVA UM CUBO DE METAL NA CABEÇA de Jô Bilac 
Júlio: cara de quem não gosta de tomar banho, jovem, interessante.
Kid: Cabelos escovados, mais charmosa que bonita.

(Lanchonete barata da rodoviária Novo Rio, numa mesinha no canto Júlio, chupando distraidamente o restinho de refrigerante na sua garrafa. Tudo o que têm coube em sua mochila jeans manchada. Surge, Kid, vai até ele.)

Kid: (seca) Antes que você diga alguma coisa, eu queria deixar bem claro que está tudo acabado entre nós. Que não há mais nada a ser feito e que nossa história não passou de um rabisco descuidado que demorou a ser apagado. Não, por favor, não diga nada. Isso só faria piorar as coisas. Suas palavras pra mim, agora seriam a conclusão do fracasso da nossa incapacidade de aceitação do que é feito da vida. Tem certas coisas que devemos simplesmente fingir que nunca aconteceram, é melhor assim. No futuro, quando eu lembrar de você, será como buscar em mim uma sombra trêmula que no primeiro feixe de luz, se desfez, assim como tudo o que havia entre nós. Ontem cedo, quando eu voltava da sua casa, o sinal fechou. Do ônibus, vi uma mulher equilibrando um cubo de metal, distraindo os motoristas com sua performance quase que hipnótica. Eu Pensei em nós dois. Eu sou essa mulher e você é o meu cubo de metal que até agora eu exibia, numa tentativa inútil de equilíbrio. Foi tão triste, que tive vontade de chorar, daí eu achei lindo. Lindo demais. Eu, chorando. Muito poético. Foi quando eu percebi que em mim havia algo de belo e nobre, que por mais que eu quisesse tentar, jamais seria abafado: A minha capacidade de amar. Isso é mais que suficiente para aceitar um novo amanhecer, repleto de possibilidades. Percebi que você, assim como os outros, não me ama de fato, fica impressionado _ encantado... _ com a minha intensidade em amar e com isso vaidoso, aceita o meu amor. O amor está em mim, e por isso não se esgota. Acredito na força do amor, sendo assim me vejo forte e concreta. Acredito na vontade de mudar as coisas. Na intensidade de uma paixão. Na tristeza de uma desilusão. Contudo, não acredito no que possa derivar do nosso encontro. Amor de aceitação é amor bolorento, paralítico, é desamor. Amor que resseca, racha a boca de frio, amor desprovido de amor. Amor de aceitação não tem gosto, não tem dente pra morder, nem língua pra chupar. Amor de aceitação é amor envenenado, cancerígeno. Eu te liberto do meu desamor. Júlio: você não foi um erro. Mas Por favor, não me procure mais. Júlio: esqueça de mim, uma vez por todas. Júlio... Adeus. (sai)

(Tempo)

(Kid volta. Senta-se na mesa com Júlio)

(Os dois se encaram)

(Júlio sem nenhuma reação. Como se a alma tivesse escapado pelo ouvido)

Kid: (pegando uma carteira de cigarro na bolsa) Você tá legal, cara?

(sem resposta)

Kid: ? (oferece o maço)

(sem resposta)

Kid: (natural) Quer um copo dágua com açúcar? Não sei... Uma dose... Eu posso pedir pra você.

(sem resposta)

Kid: Não? Nada? Ok. (acende seu cigarro) Posso fazer sua garrafinha de cinzeiro?

(sem resposta)

Kid: (tirando da bolsa uma revistinha de palavras cruzadas. Rabisca algumas coisas nela. )

(tempo)

Kid: (retida numa palavra) Epizeuxe... O que é (numa careta) Epizeuxe?

(sem resposta)

Kid: (repara no rapaz) Olha, não fica assim: não ia dar certo. Vai por mim, não é o fim do mundo. Não esquenta a cabeça com isso. Eu sei que fui um pouco fria e direta, mas espero que você compreenda as circunstâncias... (traga violenta) Você vai pra serra, né? Tá levando casaco? Ta uma friagem de congelar diabo. Eu gosto da serra... Acho a serra tranqüila, longe dessa selvageria toda, essa matança de leão diária... Às vezes eu fico Exausta... Dá vontade de largar tudo e ir pra um lugar longe, sabe? Mas paciência! Eu não tenho tempo nem pra trocar essa porcaria de sapato! (ri sem entusiasmo) Comprei semana passada, uma fortuna!, mas me aperta até a alma, ta dando calo lá! Mania, né. Meu número é 37, mas têm uns 36 que dão certinhos, depende da fôrma. Mas é um inferno, se eu pudesse ficava o dia todo de molho, só na maré mansa, mas daí to lascada, ainda mais se...

Júlio: (corta, num fiapo de voz) Por que você tá fazendo isso comigo?

(silêncio)

Kid: (tragada reflexiva, pra organizar o pensamento) Olha Júlio... Eu já estou bem descolada nesse enredo, levei muitos chutes na bunda, mas também já dei tantos... Nunca é gostoso, muito menos quando é a nossa bunda que está em jogo... Mas que remédio? Coloca gelo em cima e parte pra outra. É espinhoso e nem quero diminuir o que você está sentindo. Mas se existe alguém que quer ser feliz e que percebeu que o lance desandou, não tem como evitar.

Júlio: (quase infantil) Mas por que assim? Desse jeito? Agora... Estava tudo certo pra viagem, tudo tranqüilo, organizado, tudo bem...

Kid: Aí é que tá. Você pensava que estava tudo bem. Mas você não teve a sensibilidade de perceber o que de fato estava acontecendo. Poxa, Júlio. Faz um esforço.

Júlio: Mas eu não queria que isso acontecesse, juro.

Kid: Sabe qual é o problema, é que vocês homens nunca verbalizam o que sentem, não dá pra adivinhar o que o outro está pensando, certo?

Júlio: Certo, mas eu também não podia adivinhar a proporção disso...

Kid: (discando novamente o telefone) Pára Júlio. É claro que você sabia. Você só não queria admitir pra você mesmo...

Júlio: Não é verdade...

Kid: É verdade sim. Sua tristeza tem mais haver com vaidade, orgulho ferido do que outra coisa.

Júlio: Você me acha um poço de frieza.

Kid: Eu só acho que você perdeu algumas oportunidades pra demonstrar o contrário.

Júlio: E você é a dona da verdade, capaz de adivinhar pelo brilho do olhar do outro o que realmente está sentindo! Incrível! Olha, eu realmente estou muito surpreso! Você é fantástica! O que vê nos meus olhos agora, héin?

Kid: Ironia gratuita como forma de defesa. Natural, estamos avançando na escala dos rejeitados!

Júlio: Você se acha muito esperta, né... Mas eu olho pra você e vejo uma mulher que não sabe nada a respeito de amor e que tem um discurso muito do chinfrim à respeito de tudo! Porque se...

Kid: Se meu pai fosse mulher eu teria duas mães! Agora fecha o bico, porque pra mim isso também não está sendo nada fácil!

(tempo)

Kid: (disca violenta o telefone. Atendem. ) Boa tarde, aqui é Kid Bauhaus do “Falamos por você”, com quem eu falo? (__ ) Oi Camila... O seu pedido foi concluído com sucesso e aguardamos o depósito do restante do pagamento. (__) Sim... (__) Não. (__) Evidentemente... Ok. Pra confirmar: Agencia 033, número da conta 145 3367 830. Repetindo: Agencia 033, número da conta 145 3367 830. Assim que o depósito for efetuado, a devolução dos bens será concluída imediatamente.(__) Imagina, “Falamos por você” é que agradece a preferência e lhe deseja uma boa tarde. (desliga)

Júlio: (com um brilho no olhar) Era a Camila?

Kid: (seca) Sim.

Júlio: Ela perguntou por mim?

Kid: (contundente) Não.

Júlio: ( murcho) Por que ela não quer falar comigo? Por que ela não veio aqui me ver...

Kid: (cruel) Porque ela NÃO QUER! Por isso contratou os serviços do “Falamos por você”. Ela não quer te ver nem pintado de ouro!

Júlio: Vocês retêm os bens dela?

Kid: Não é da sua conta.

Júlio: (puxa violento o braço de Kid) Escuta aqui moça, não tira farinha com aminha cara! Respeito é bom e eu gosto.

Kid: Vai fazer o que? Me agredir?Estou sendo agredida! Estou sendo agredida! (

(ele solta o braço dela)

Kid: Pro seu governo, os bens são dela sim, mas foram dados por você. Assim que ela nos pagar, estaremos enviando para o seu endereço. Se ela não pagar, ficamos com tudo, aí você processa a Camila, manda prender e etc.

Júlio: (tomando-se de uma agitação violenta) Estou me lixando pra essa porcaria!

Kid: Tá nervosinho, tira as calças pela cabeça, mas não vem com grosseria pro meu lado.

Júlio: Escuta aqui...

Kid: Escuta aqui você, meu camarada. Eu estou fazendo o meu serviço e não tenho nada haver com o que você pensa ou deixa de pensar. NÃO ESTOU INTERESSADA!

(silêncio)
(silêncio)
(silêncio)

Júlio: Desculpa...

Kid: (ignora) Sabe se por aqui tem ônibus pra Pavuna?

Júlio: Não.

Kid: Nào tem ou você não sabe?

Júlio: Não sei...

(tempo)

Kid: To com medo... Esse lance de colocarem fogo em ônibus...Sei não... Pavuna... É chão... O Prefeito falou pra gente não ter medo...mas ele não pega ônibus pra Pavuna... O povo é que paga o pa...

Júlio: (corta) Quanto ela pagou...?

Kid: Não discuto isso com terceiros.

Júlio: 350 pratas. Com sinal de 100. Eu já vi o anuncio de vocês nos jornais.

Kid: (seca) Pois é. Verbalizar o que se está sentindo pode custar caro.

Júlio: Mas esse preço é porque se trata de um rompimento. Declarações de amor são mais baratas. Não são?

Kid: Se sabe por que tá perguntando?

Júlio: Quase ninguém mais faz declarações de amor hoje em dia, ou se faz fala na lata, não precisa de ninguém pra falar por elas _ neguinho não está disposto a torrar grana com declaração de amor_ então vocês baixam o preço, faz promoção...

Kid: É mais simples: fazendo esse papel me arrisco em levar um soco na fuça. Daí cobro mais caro.

Júlio: Não é só isso... Não é fácil romper. Seja lá qual for a natureza desse rompimento. É preciso ser profissional pra fazer sem sofrer. (muda o tom) Você sabe o que exatamente ela está devolvendo...?

Kid: (ainda arredia, tira a contragosto um a lista de sua bolsa) Um disco do Paul Simon, quatro ursos de pelúcia, uma camiseta azul marinho com estampa de veleiro, dois shorts de algodão, um casaco verde musgo com zíper, (Júlio vai se encolhendo, e ä medida em que a lista avança , minguando ainda mais. Tudo muito triste.) uma camisa de manga comprida preta, um colar prateado com pingente de golfinho, um chinelo de dedos de borracha, cinco livros da coleção “Grandes Filósofos”, a biografia do John Lennon, o mapa de Londres, dois óculos : sendo um escuro e outro de grau, com a lente esquerda quebrada, um tênis branco encardido, uma máscara de carnaval, uma lata de achocolatado, uma miniatura do Chaplin, duas calças jeans puídas na barra, uma jaqueta jeans faltando dois botões, o carregador do seu celular, dezenove fotografias suas_ variando entre férias, datas festivas e uma da infância_ uma caneca de cerâmica da cor bordô, uma Polaroid quebrada , uma calça de moletom cinza, um batom ameixa, seis anjinhos de porcelana, uma escova de dentes com cerdas macias e um isqueiro pequeno vermelho .

Júlio: (perdido) O que é que eu vou fazer agora...?

Kid: Vai pra serra. Vai passar... Se não passar, aqui está o meu cartão, pedidos de “Volta pra mim” sempre rola um desconto... Não me olhe assim, ganho por comissão. (faz que vai sair, ele a interpela)

Júlio: Espera.

(ela volta-se)

Júlio: (tira do bolso umas notas de dinheiro) Eu compro.

Kid: O que?

Júlio: Uma declaração de amor. Eu compro.

Kid: Não é assim, você tem que ligar pra agência, marcar hora, deixar seus dados...

Júlio: Não! Eu quero agora... Eu preciso agora. Eu pago. Por favor.

Kid: (suspira) É pra Camila? Porque se for, eu acho...

Júlio: Pra mim. Eu quero comprar uma declaração de amor pra mim mesmo.

Kid: Acho que não vai dar...

Júlio: Não pode comprar uma declaração de amor pra si mesmo? (tempo) Por favor... Faz isso por mim...

Kid: ( pensa. Por fim se decide. Respira fundo. Pega o dinheiro. Olha nos olhos do rapaz)
Não quero amar desesperadamente, contudo, desesperadamente já te amo. O amor caiu como uma rocha gigantesca em minha cabeça. Esmagadoramente : Já te amo. Te amo por imaginar no que você possa me dizer, te amo por reconhecer seu cheiro mesmo sem nunca ter te cheirado, te amo por saborear seu gosto em minha boca mesmo sem nunca em ti ter provado, te amo por questionar o que deve estar se passando por sua cabeça agora, se gosta de café, se já foi a Buenos Aires, se tem alergia a camarão, se prefere frio ou calor... Te amo por imaginar a série de coisas que possa me ensinar, te amo pela lindeza do que sinto por você, pois só você foi capaz de despertar em mim essa força tamanha que desconheço, que me orgulha e que me entristece...........muito. Me entristece por perceber que te amar em sonho é por enquanto tudo o que posso fazer.
Amo à queima roupa. Amo assim, loucamente, ansiosamente, já com saudade de amar. Amo você por toda a sinceridade que existe em nosso amor, amo você por te querer tanto, por aguardar silenciosamente o seu sorriso pra mim. Amo você, amo você, amo você....

(ele vai até ela e de supetão lasca um beijo )

(ela o empurra e o esbofeteia. Os dois se encaram)

(desejo incontrolável, ela o agarra e vem um beijo cinematográfico.)

(Ficam por ali se beijando deliciosamente......... Em poucos instantes já não é mais possível vê-los no meio da multidão)

 

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Grã-Bretanha tem 'boom' de mães com mais de 50 anos
SITE G1 – 05 DE NOVEMBRO

As cegonhas

( Cegonhas num piquete reivindicando seus direitos trabalhistas.)

Cegonhas: (com placas e cartazes, em coro, incitadas pela líder que grita no megafone) Abaixo a ditadura, o que é que tem ser mãe madura?! Abaixo a ditadura, o que é que tem ser mãe madura?!

Vânia: Aqui é Vânia Brandão direto da Presidente Vargas, onde o que parecia ser um simples protesto, gerou um verdadeiro caos no trânsito e parece que está longe de ser resolvido! Um grupo de cegonhas , filma aqui Tiago, um grupo de cegonhas reivindicam seus direitos trabalhistas. Estou aqui com a líder delas, que vai nos explicar exatamente o porquê disso tudo. Olá, líder das cegonhas, o que a senhora tem a dizer sobre essa zona criada por vocês que acabam respingando em terceiros que não tem nada a ver com sua vida?

Cegonha: Veja bem, companheira! É injusto falar que não tem nada a ver! As companheiras cegonhas trabalham dia após dia, sem feriado, sem final de semana, sem recesso de natal e ano novo. Porque todo dia nasce gente! E somos nós as responsáveis por levar essas crianças para as mães.

Vânia: E o Kiko?

Cegonha: Oi?

Vânia: E o Ki que eu tenho a ver com isso? 

Cegonha: Tem a ver, companheira, que a sociedade não reconhece o valor de nós trabalhadoras, que damos duro desde sempre, que trabalhamos suado, e não temos o reconhecimento do nosso trabalho. Isso é injusto! Onde está o direito trabalhista nessas horas? O estatuto da cegonha prevê licença médica por conta de estresse provocado por nossa profissão e no entanto, muitas de nós, estressadas ao extremo, continuam trabalhando sem o direito do descanso merecido! 

Vânia: Mas por que vocês estão gritando: “abaixo a ditadura, o que é que tem, ser mãe madura?”

Cegonha: Porque rima! Sacanagem! Heheheh é porque uma de nossas companheiras foi injustiçada, e demitida indevidamente!

Vânia: A senhora se refere à Cegonha Cristiane, que foi afastada do seu cargo devido ao uso abusivo do álcool?

Cegonha: Veja bem, a companheira Cristiane foi uma vítima desse sistema feudal trabalhista! Você mesma companheira! Você mesma, se sofresse essa pressão diária iria procurar conforto num copo de cerveja! E foi assim com a nossa companheira Cristiane F. drogada e prostituida por esse sistema mundo cão.

Vânia: Mas pelo que eu soube, filma aqui Tiago, pelo o que eu soube, Cristiane não é flor que se cheire e foi a grande responsável pelo boom da maternidade após 50 anos. Isso é verdade?

Cegonha: Olha, Vânia, vou ser sincera com você, o que Cristiane fez foi justamente atiçar essa demagogia que nos atola, questionando justamente: “Que é que tem ser mãe madura?” A companheira não pode ser afastada do seu cargo por permitir à mulheres mais maduras, bem estabelecidas emocionalmente e financeiramente, o direito de ser mãe! Que ditadura é essa? Onde está o direito do cidadão? Porque eu não se se você sabe, Vânia, mas a nível de lembrete, tá?, a nível de lembrete, o estatuto da cegonha parágrafo 12 versículo 11 não prevê restrições quanto a idade da mãe em questão.

Vânia: Mas pelo que consta Cristiane não fez isso por um pensamento político, as testemunhas alegam que ela entregou os bebes para as mães erradas por que estava com o pote cheio, virada na lata, na manguaça, bêbada da silva, balão balão, colada no gambá, com o pé na jaca, encachaçada! Isso é verdade? Filma aqui , Tiago!

Cegonha: Vou checar essa informação ta?, vou checar. Mas creio que isso não passa de um golpe da oposição querendo enfraquecer o nosso movimento! Não teve uma mãe cinquentona que tenha reclamado do bebe entregue pela companheira Cristiane! A atitude da companheira, faz com que o índice de emprego para esses bebes aumente cada vez mais, crescendo ao lado de mães maduras. Porque eu não sei se você sabe, eu tenho aqui os gráficos, eu tenho a informação de que mães maduras são mais seguras. Está aqui a atriz Cássia Cassis que não me deixa mentir, teve mais um bebe agora aos 58 anos e está feliz da vida.

(Cássia com um bebe de colo)

Vânia: Filma aqui Tiago. Cássia, você veio defender os direitos das cegonhas?

Cássia: Evidentemente, as cegonhas tem um sindicato forte, bem estabelecido e merece a nossa atenção. Assim como o câncer de mama. Você mulher, já fez o teste do toque hoje? Pois bem, é simples, eu mesma mostro e vamos...

(Cássia faz que vai colocar o peito para fora)

Vânia: (corta) Tudo bem, Cássia, tudo bem! Mais tarde a gente mostra você apalpando, enfim... Mas me responde uma coisa, Cássia, da pra ser mãe aos 58 anos, amamentar, trocar fraldas e ainda por cima estar linda e bela na reprise de vale tudo?

Cássia: Claro que dá, eu adoro amamentar e inclusive eu posso mostrar...

(faz que vai colocar o peito pra fora)

Vânia: (corta) Tudo bem, Cássia! Tudo bem, não precisa mostrar, acrdeitamos em você... 

Cássia: Olha Vânia, muitas mulheres tem esse medo, dizendo que não dá, mas na realidade o que não dá é essa estreiteza de valores quanto a maternidade que vem sendo explorada pela ditadura da jovialidade. Eu mesma, nunca fiz plástica, nem vou fazer, não como açúcar e não sou menos mãe por conta disso.

Vânia: Mas Cássia, segundo consta esse bebe foi entregue por engano pela cegonha Cristiane, pois a sua verdadeira mãe é a jovem ex BBB que fez ensaios sensuais para o site chocolate.

Cássia: Mas como você mesma acabou de dizer, Vânia, ela é uma ex BBB, ex BB, sem bebe, entendeu? Ex BBB... (sorri)

Vânia: Essa foi a pior piada em cima de trocadilho que já ouvi! Mas tudo bem, a Elaine traz o papaia e a Cássia Cássis! Hehehehe Um instante! Um instante! Noticias de última hora: a cegonha Cristiane foi presa na saída do santa bárbara, pega pelo bafômetro. Segundo consta, Cristiane estava indo para o piquete, mas foi detida por policiais dirigindo embriagada ao lado da cantora Ângela Gongou. Temos imagens? Produção? Temos imagens? Ok, não temos imagens, mas tudo bem porque afinal de contas se a Elaine defendeu, a Ângela Gongou...hahahah entendeu? Gongou... Gongada! hahaha! Ai gente, cadê o espírito esportivo? Filma aqui, Tiago. Bom, aqui é Vânia Brandão e voltamos mais tarde com mais informações! 

Fim

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“ Não identificado”

De Jô Bilac

( Mike e Lola, um casal diferente, sempre buscando novidades na vida, estão acampando na praia na tentativa de manter contato com um alienígena)  

Mike: (saindo da barraquinha iglu) ô Lola, será que eles vem mesmo? 

Lola: (com vestido de festa, cercada por cristais e lunetas , enquanto ajeita o piquenique noturno) Claro que vem, Mike! É preciso ter paciência, não é assim... os alienígenas são muito temperamentais, gostam de uma entrada impactante...

Mike: Mas já estamos aqui faz horas e até agora nada!!!

Lola: (repara no marido) Mike! Não acredito! Você ainda está assim?

Mike: Lola, estamos numa praia...

Lola: Não senhor. Estamos a um passo de entrarmos em contato com uma civilização avançada, superior, inatingível e você está de shortinho! O que eles irão pensar ao ver o representante masculino da nossa espécie de shortinho! Vai lá colocar o smoking! 

Mike: Ta doida, Lola? 

Lola: Doida eu vou ficar, Mike, é quando os alienígenas chegarem aqui e o senhor ainda estiver com esse chinelinho de dedo!!! Aí eu vou ficar louca, insana, babando!!!

Mike: E você acha que isso faz diferença p eles, meu amor?

Lola: Claro que faz... É claro que faz! Eu tenho aqui esse patê de fígado de avestruz salpicado com alecrim fresco, que é uma coisa de outro mundo! Tem aqui geléia de damasco com raspinhas de coco com duas gotinhas de rum da Chanchárlia, que é pra ver estrelas! Tem esse queijo demerara , que só o soro é uma exorbitância astronômica! Mike, eles vão adorar isso aqui!!!

Mike: Lola, e se eles não vierem...?

Lola: bom... Não seria simpático da parte deles... Estou com o meu Jimmy Choo cheio de areia e deixei de jantar com a Marielle e Liege... Não contei o motivo, pois do jeito que são invejosas iriam logo querer imitar a gente... E detesto isso! Falta de criatividade!

Mike: Mas, Lola, estamos a seis meses atrás dessa criatura e nada!!!

Lola: Mas agora é diferente, Mike! Eu sinto!!!

Mike: Você disse a mesma coisa em Dallas e em Ibiza.

Lola: Mas aqui na Austrália, com esses cangurus e essa energia no ar!!! E você viu nos jornais: as criaturas estranhas estão por aqui... Você não sente? É magnético, Mike!!! Ta sentindo? 

Mike: Eu to é sentindo vontade de outra coisa... (safadinho) 

Lola: Ai , Mike, será que é só nisso que você pensa? Na recompensa da carne? No prazer efêmero e vazio? Na falta que nos move? No deve haver algum sentido em mim que basta? 

Mike: Ih, Lola...é que estamos aqui nessa praia, sozinhos, nesse climinha romântico... Poxa...

Lola: Poxa, digo eu seu Mike! Poxa, digo eu! Francamente...Eu aqui, querendo causar boa impressão aos nossos visitantes intergaláctico e o senhor aí, querendo saciar sua necessidade animal tacanha! O ser humano é um povinho mesmo ultrapassado, preso nessa biologia estúpida!

Mike: Nossa, mas hoje você acordou mesmo de ovo virado! Caramba! Vou preparar um cowboy pra ver se você se acalma...

Lola: Não me apareça aqui com bebida alcoólica, Mike! Não me dê esse vexame!

Mike: Vexame? Mas é só uma dosesinha...

Lola: De dose em dose, a galinha fica bêbada! Você quer parecer uma galinha bêbada na hora em que chegar nossos colegas do espaço? Quer? Olha o papelão!

Mike: Lola, você está sendo radical...

Lola: Nada disso, eu não quero que eles pensem que o ser humano é um ser abobalhado que só sabe relaxar enchendo a cara!

Mike: Então eu vou acender um baseadinho...

Lola: (num ataque) Mikael Brandão de Atoledo carvalho! O senhor está maluco? Só me responda isso...

Mike: Mas, Lolinha...

Lola: Não tem mais nem menos mais! O senhor está maluco? Não quero saber de maconha nessa praia! Ouviu bem?

Mike: Lola!

Lola: Ai de você... Olha Mike, nem sei! Não quero nem pensar! Se me aparecer aqui com esse cigarrinho do diabo, com essa erva do mal, a perninha de grilo, a marijuana, a ditacuja, o tempero de satã!!! Se me aparecer aqui com isso, eu vou te dar uma tapona, mas tão forte, tão forte, que vai ficar falando fofo uma semana!

Mike: Mas é só um baseado!

Lola: maconha! O nome disso é maconha! 

Mike: Mas se a humanidade fumasse mais, os tratados de paz sairiam mais rápido!

Lola: Se sairiam eu não sei, mas se você acender isso perto de mim, o que vai sair é o tratado do nosso divórcio!

Mike: Ok, ok, você venceu... Não está mais aqui quem falou...

Lola: Poxa! Estamos meses atrás desse momento, dia e noite, nessa saga incansável e você quer colocar tudo a perder enchendo os córneos de maconha???

Mike: Mas que chato, Lola. Não pode trepar, não pode beber, não pode fumar! Caramba! Esses caras são muito chatos!

Lola: São evoluídos! E nós terráqueos devemos aprender isso com eles! Mike! isso é transcendental. Isso é Gal, isso é baby Consuelo na veia! Não vai precisar desses artifícios baratos para atingir o nirvana! 

Mike: (amuado)

Lola: O que foi?

Mike: nada...

Lola: Fala, Mike...

Mike (fazendo charme): To enciumado.

Lola: Com que?

Mike: Com esse cara... Você só fala dele o tempo todo... Porque é evoluído, porque é nirvana, porque é não sei o que... Poxa... E eu?

Lola: Mas é diferente...

Mike: Diferente nada... fez até a geléia que eu gosto pro cara...To chateado...

Lola: Mas Mike, nós somos anfitriões... Temos que dar o exemplo...

Mike: Exemplo de que? Lola, olha pra você, tentando ser uma coisa que não é... 

Lola: Eu sou assim!

Mike: Não é, Lola... Você adotou as nossas crianças com AIDS só pra impressionar os alienígenas e começou a separar o lixo só pra dizer que é consciente com o eco sistema. É mentira. Você está se lixando pro eco sistema!

Lola: Eu amo o eco sistema.

Mike: Mentira, ama nada...

Lola: Amo...

Mike: Lola, você pode enganar a qualquer um até a você mesma, mas a mim não engana. Pra que? Se eles quiserem a nossa amizade, vai ser pelo o que nós somos e se gostamos de encher a cara, fumar a nossa maconha, e de levar uma vida cara e sem sentido, eles vão ter que gostar da gente assim. É assim que deve ser entre as pessoas que se amam. E eu amo você, mesmo sabendo que fez a sua mãe assinar papéis em branco pra logo depois interná-la num asilo. 

Lola: (emocionada) Ai Mike! Eu também amo você! Desculpa! Eu tenho sido uma imbecil durante esses meses, desculpa...

Mike:: (abraçando-a) Tudo bem, meu amor, acontece...

Lola: Eu fiquei tão ansiosa com essa coisa de contato espacial que acabei perdendo o contato com o ser mais especial da minha vida! Você! Eu te amo, meu amor! Me perdoa!

Mike: Não tem o que perdoar! Eu te amo e por você eu atravessaria todas as galáxias se fosse necessário.

(se beijam demoradamente, com muita paixão)

( nesse momento aparece um casal de alienígenas. No entanto, Mike e lola estão muito ocupados rolando no chão se beijando.)

Alienígena mulher: está vendo? É disso que estou falando! Romance!!! Os terráqueos sabem do riscado!

Alienígena Homem: Mas benzinho, essas nossas férias na Austrália foi justamente pra isso... Olha, comprei até um Daluzinho pra gente fumar e dar uma relaxada...

Alienígena mulher: Se você acender esse daluzinho eu quebro seus dentes e você vai ver como é bom comer gelatina por dois meses!

Alienígena Homem: Mas benzinho...

Alienígena mulher: Não tem mais , nem menos mais, eu já disse...

(os dois saem discutindo, enquanto Mike e Lola rolam no chão, na pura paixão)
 

fim

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CHOQUE DE ORDEM

Um PM radicalizou na compreensão do que seja o Choque de Ordem nas praias e, na madrugada de segunda-feira, na altura da Vinicius de Moraes,mandou que duas amigas, passeando de topless na areia, colocassem o sutiã.

COLUNA GENTE BOA – O GLOBO – quarta-feira, 24 de março de 2010-03-24

Jo Bilac

“Ao vivo”

De Jô Bilac

Márcia Cabin, a repórter

Câmera

Osvaldinho Please, carnavalesco

( Vinheta do tele jornal. Carnaval, apoteose do Rio, cobertura ao vivo da concentração.)

Márcia Cabin: ( com tom de voz elevado, por conta do som da escola de samba. Para o câmera) Aqui é Márcia Cabin, direto da concentração da escola de samba grêmio recreativo unidos do Cordão do puxa saco cada vez aumenta mais e o meu pedaço. Estou aqui com ele, Osvaldinho Please, carnavalesco visionário, que vem com tudo e não está prosa, nesse desfile apoteótico que promete entrar nos anais da história do samba. Please, diz pra mim: Muitas expectativas para entrar nesses anais?

Osvaldinho: (um misto de Clodovil com Narcisa Tamborindegue. Muito animado, fazendo esforço para ouvir) Primeiramente gostaria de agradecer a minha escola maravilhosa, que perdendo ou ganhando mais um carnaval, antes de me despedir, deixo ao sambista mais novo o meu pedido final: Não deixe o samba morrer! Não deixe o samba acabar.

Márcia: Please, o que você achou da proibição dos peitinhos na passarela na Sapucaí? Você que é um homem vanguarda, criação européia, tico tico no fubá, não acha que o choque de ordem foi longe demais?

Osvaldinho: (gesticulando muito e revirando olhinhos) Olha, Márcia, eu acho que cada um no seu quadrado. Cada macaco no seu galho. O choque de ordem não pode reprimir a criação artística de um artista e muito menos a reação espontânea do seu povo! Deixa o peitinho reinar! O que tem de mal num peitinho? Peitinho é maravilhoso! Você é maravilhosa! Todos somos maravilhosos!

Márcia: Obrigada, Please! Mas diz pra mim, carnaval sem peitinho é carnaval?

Osvaldinho: (com dificuldade de ouvir) Oi?

Márcia: (quase ao grito, gesticulando muito) Carnaval! Não peitinho!

Osvaldinho: Um absurdo! Carnaval é peitinho, é mamilo purpurinado, é silicone balançando! Não pode ser diferente! Tem que ser maravilhoso! Daqui a pouco eles vão fazer o que? Proibir a insinuação explicita de sexo fácil nos carros alegóricos? Era o que faltava, né! (sorri débil para a câmera)

Márcia: Please, o que você achou do choque de ordem também ter proibido os mijões nesse carnaval, criando filas imensas nos mictórios móveis espalhados pela cidade? Mictórios esses que ficaram super lotados de xixi, terminando por vazar e inundando as calçadas de qualquer maneira. Diz pra mim!

Osvaldinho: O que?

Márcia: Mictórios vazando na General Osório!

Osvaldinho: Não estou ouvindo, Márcia.

Márcia: Choque de ordem! Choque!

Osvaldinho: Sim, vai ter muito rosa choque, muito flúor, muito amarelo limão, o diferencial desse carnaval vai ser justamente essa coisa chiclete, chocante, londrina de ser! Porque o brasileiro tem capacidade, o brasileiro pode e se sacode, o brasileiro é maravilhoso!

Márcia: Please, eu me refiro ao choque de ordem imposto na cidade causando uma série de proibições com penas severas aos infratores!

Osvaldinho: Sim! Muitas penas amarelas nos corredores! Mas não é só isso, vem muita coisa aí, mas não vou contar pra não estragar a surpresa, né. Mas o que posso adiantar é que é tudo sintético, com penas e plumas confeccionadas pelas meninas cantorinhas de Manaus, maravilhosas, meia dúzia de indiazinhas, tudo com peito de fora, tudo livre, tudo maravilhoso. Tá maravilhoso!

Márcia: Please, seu enredo dialoga com essas questões?

Osvaldinho: Articula Márcia, não estou te ouvindo!

Márcia: Essas questões, como as moças que foram presas por conta de um topless, atitude quase política em alta nos anos 80.

Osvaldinho: Sim, a velha guarda é de 80 pra lá. Eu confeccionei cadeiras de rodas maravilhosas, tudo maravilhoso, a velha guarda vem nessas cadeiras com rodas importadas, que vieram da Europa, espelhadas, que formam um caleidoscópio maravilhoso e vibrante que faz menção a queda do muro de Berlin e tem toda a coisa maravilhosa da Constantinopla, e Alexandre o Grande, Joana Darc, o povo Zulu, que também é um povo maravilhoso, que dialoga com o espetáculo que estou em cartaz na casa de cultura Laura Alvin, sextas e sábados 21 horas e domingo 20 horas, “ Quem com ferro fere com ferro será ferido”, Osvaldinho Please e grande elenco, não percam!

Márcia: Please, eu falava do choque de ordem imposto por nosso prefeito! O Choque!

Osvaldinho: Meu bem, já falei do rosa choque! Seje criativa. Seje esforçada. Seje gente.

Márcia: Seja!

Osvaldinho: O que?

Márcia: (grita pra ele) Seja gente!

Osvaldinho: Isso, seje gente.

Márcia: Bicha burra, você é uó!

Osvaldinho: Tô muito feliz! Tá tudo muito lindo! Muita emoção!

Márcia: Você é uó!!

Osvaldinho: Viva o carnaval! Maravilhosa!!!!

Márcia: Bicha uó!!!!

Osvaldinho: (canta o samba feliz, sem entender o que a repórter fala)

Márcia: (Marcia desiste de Osvaldinho que cai no samba, feliz) Bom, esse foi Osvaldinho Please, que não falou coisa com coisa, mostrou que é ruim de cabeça, mas tem samba no pé! Aqui é Márcia Cabin, direto da concentração do samba! Vou ficando por aqui, pois o choque de ordem proibiu imagens de pessoas bêbadas e felizes, requebrando até o chão, em rede nacional! E é sempre bom lembrar: use camisinha, dança da galinha, e se beber não dirija e nem mije na rua! Boa noite!

(samba cresce. Fim)


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Blangila”
de Jô Bilac


Numa loja

Homem: Oi. A senhora poderia me ajudar?

Atendente: Sim, claro. Qual é o problema?

Homem: Vim trocar a minha esposa. Comprei mês passado e deu defeito.

Atendente: O senhor já levou na autorizada?

Homem: Levei, mas não adiantou. Ela continua com defeito. Quero trocar.

Atendente: O seguro do senhor não cobre trocas, só concertos.

Homem: Mas minha mulher continua com defeito.

Atendente: E qual é o defeito?

Homem: Ontem fui agredido por ela na praia!!! O sistema dela lê pensamentos e com ciúme me agrediu! E olha que os pensamentos foram bem leves!

Atendentes: A Blangila 126 estava na prooção justamente por conta dissso senhor. Ela é capaz de adiivinhar ssuas vontades e atender os seus desejos justamente porque lê seus epnsamentos.

Homem: Mas eu não fiz nada!!! Só pensei e fui agredido!!!!

Atendente: A Blangila 126 é faixa preta estava no manual. Próximo!

Homem: Peraê, peraê! Não estava escrito no manual que eu apanharia dela!

Atendente: Também não estava escrito que não. É só isso senhor? Próximo!

Homem: Peraê, peraê! Tem também. esse problema dela com conjugação verbal.

Atendente: Conjugação verbal?

Homem: Tudo no infinitivo e alguns em específicos.

Atendente: Quais?

Homem: (aperta o botão da esposa)

Esposa: Gastar, comprar, desperdiçar...Gastar, comprar, desperdiçar....

Atendente: Mas não é defeito, é um original da Blangila 126.

Homem: Como assim?

Atendente: É assim mesmo. Esse modelo reage naturalmente aos comandos de uma mulher contemporânea. Encalhou uma porção por aqui. Blangila 126 é a expressão fiel do ditado: o barato sai caro.

Homem: Mas na embalagem dizia que era a esposa perfeita!

Atendente: Justamente. Uma esposa perfeita sabe fazer bom uso do dinheiro do seu marido.

Homem: E o que eu faço agora?

Atendente: Joga essa fora e compra uma nova. Veja só, essa aqui acabou de chegar: Blangila 659. Um modelo mais arrojado, econômico, funcional. E além disso ela fala três idiomas, pratica massagens, frita peixe e dança até o chão.

Homem: Quanto custa?

Atendente: 789 pratas.

Homem: 789 pratas???!!!! Isso é um roubo, minha senhora!

Atendente: Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Sua Blangila 126 vai te levar pra falência com todos os verbos! E mais que quebrar sua carteira, vai quebrar é a sua espinha se o senhor continuar pensando “errado”.

Homem: É muito caro, eu não tenho essa grana...

Atendente: Parcela.

Homem: Sai por quanto?

Atendente: Em até 8 vezes, sem entrada, com uma pequena taxa de juros: 920 pratas.

Homem: Caríssimo!!!

Atendente: Caríssimo é esse modelo que o senhor comprou. Essa é a sua chance de mudar! A felicidade tem seu preço.

Homem: E o que eu faço com a minha esposa?

Atendente: Aproveita como amante. A Blangila 126 é ótima de cama.

Homem: Não sei... Estou na dúvida...

Atendente: É pegar ou largar.

Homem: O que você vai fazer hoje a noite?

Atendente: Isso é uma cantada?

Homem: Acho que sim. Pagar um jantar e te levar pro motel saem mais barato que essa Blangila 659.

Atendente: Sinto muito, já sou comprometida.

Homem: Ele é mais atraente que eu?

Atendente: Sim. E ainda Fala três idiomas, pratica massagens, frita peixe e dança até o chão.

Homem: Ok. Você venceu, embrulha uma pra mim.

fim

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MECÂNICO COMEMORA 13 ANOS DE MORTE

Luiz Henrique Bayma teve a morte forjada em abril de 1997;segundo ele, pela ex-mulher, que buscava pensão vitalícia

FOLHA DE SÃO PAULO – COTIDIANO – 11 DE ABRIL DE 2010

JO BILAC

DESLIGA, POR FAVOR. de Jô Bilac

André: (sussurrando, atende o telefone) Alô...

Suzi: (do outro lado do telefone, histérica) André?????

André: Suzi, pode me ligar depois? Vai começar a peça, já deu o terceiro sinal...

Suzi: Que papo é esse, André? onde você está em plena sexta feira a noite?????

André: Num teatro...

Suzi:(passional) hahahahhaha!!! Você está é num motel da Gomes Freire com uma vagabunda, trepando horrores!!! Seu canalha!!!!

André: Não Suzi, não estou com nenhuma " vagabunda num motel da Gomes Freire, trepando horrores", estou num teatro aguardando uma peça começar.

Suzi: (chorando) Mentira!

André: Não é mentira..

Suzi: É sim!!!!

André: Escuta...

Suzi: Sórdido! Te odeio!

André: Vai escutar?

Suzi: Vocês homens são todos iguais!!!

André: Suzi...

Suzi: Eu sou uma burra por ficar insistindo!!!

André: Suzi, eu só não te chamei porque você já disse mil vezes que não gosta de teatro e hoje é a estréia de uma amiga minha e eu vim prestigiar...

Suzi: Que amiga? Homem não tem amiga! Onde já se viu homemm ter amiga? Amiga atriz então...!!! Não confio no caráter das atrizes! Só se for sapatão! Ela é sapatão? Quem é essa atriz sapatão, André?

André: E quem disse que a minha amiga é atriz sapatão? É a estréia dela como produtora de teatro... E ela é casada, tem filho, super repeitada.

Suzi: E que peça é essa?

André: "Clube da cena".

Suzi: (desconfiada) Clube? Ué? Não é teatro? É clube? Qual é André??? Que papo é esse de clube?

André: É o nome do espetáculo, Suzi!!! Clube da cena. Toda semana um espetáculo diferente, com um elenco variado.

Suzi: Onde?

André: No teatro Maria Clara Machado, planetário, aqui na Gávea, perto da PUC.

Suzi: PUC???? Agora eu entendi tudo! Vc está é enchendo os córnios com essas universitárias maconheiras dos infernos! Como eu te odeio , André!!!!

André: Suzi! Pelo amor de Deus, não pira! É só uma peça de teatro. Hoje inclusive tem uma cena do Jô Bilac. Você não gosta do Jô BIlac?

Suzi: O Jô Bilac? Aquele rapaz sexy e inteligente?

André: Isso mesmo.

Suzi: Não mente pra mim, André! Eu tenho uma amiga que conhece o Jô, com um telefonema eu descubro se essa sua história é real ou não!!!

André: Claro que é real! Inclusive eu tenho que desligar justamente porque a cena que o Jô escreveu já vai começar.

Suzi: E sobre o que é?

André: O que?

Suzi: O texto do Jô.

André: É sobre um cara que está comemorando 13 anos de morte. A morte foi forjada pela esposa pra ela ganhar um seguro, um lance assim...

Suzi: Eu vou amanhã aí pra ver se é verdade.

André: So tem nas sextas.

Suzi: Você quer me dizer que esses caras tem um trabalho gigante pra mntar um espetáculo diferente e só se apresentam 1 vez por semana?

André: É isso aí. Se quiser, a gente vem sexta que vem...

Suzi:Não gosto de teatro... Mas eu vou!!!! E "ai" de você se esse espetáculo não estiver em cartaz!!!!!! Eu acabo com a sua raça, André!!!

André: Ok. Tenho que desligar agora. vai começar.

Suzi: Tá certo... Quando acabar me liga.

André: Ok. Beijos.

Suzi: ( fazedo mimo) Você me ama?

André: (meio impaciente) Ai..Suzi... Amo, amo sim...

Suzi: Muito ou pouco?

André: Muitão.

Suzi: Muitão muitão?

André: Muitão muitão. Agora é sério amor, tenho que desligar.

Suzi: Tá. Beijos.

André: Beijos.

(André desliga. Revela-se que ele está num motel com Sheilla)

Sheilla: (super vagabunda) Nooossa!!! Pensei que não fosse desligar nunca...

André: Foi mal, Sheillinha... A minha namorada é muito desconfiada...

Sheilla: Ah! Então vamos aproveitar, porque segundo o anúncio desse jornal, a peça só tem 1 hora e vinte minutos!

André: Viva a cultura nacional! (beijam-se com muito desejo)

fim

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"Duas amigas" de Jô Bilac

(uma conversa de fim de tarde, tudo muito natural)

Mulher: Mas diz... É menino ou menina?

Mulher grávida: É Allien.

Mulher: Você foi abduzida?

Mulher grávida: Não. A gente marcou um encontro no Amarelinho da Cinelândia e acabou rolando.

Mulher: Hum... E nasce quando?

Mulher grávida: Em dois anos e meio.Allien né... Você sabe como é.

Mulher:E como você está fazendo?

Mulher grávida: Em que sentido?

Mulher: As coisinhas do neném. Você compra que cor? Rosa ou azul?

Mulher grávida: Branco.

Mulher: Branco... Que idéia boa.

Mulher grávida: Quer ser madrinha?

Mulher: Não.

Mulher grávida: O pai dele é muito poderoso.

Mulher: Ele fez algum filme?

Mulher grávida: Não. Mas se parece muito com um cantor que não posso dizer o nome.

Mulher: Sou ou não sou sua melhor amiga? Me conta vai...

Mulher grávida: Não posso. Ele me mata.

(as duas riem, tranquilas)

(tomam café)

Mulher grávida: E você? Não pensa em ter um bebê?

Mulher: Eu já tive.

Mulher grávida: Amiga! Quando foi isso? Nem fiquei sabendo...

Mulher: Amiga, foi meio complicado... Mas no fim deu tudo certo.

Mulher grávida: Que legal. Menino ou menina?

Mulher: É Satã.

Mulher grávida: Hum... E como fez na cor das coisinhas?

Mulher: Comprei tudo preto.

Mulher grávida: Babador? Pagãozinho? Berço...

Mulher: Tudo preto! É uma economia pra lavar.

Mulher grávida: Que boa idéia...

Mulher: Quer mais café?

Mulher grávida: Não, obrigada. E cadê Satã?

Mulher: Foi pro cursinho.

Mulher grávida: Ah...

Mulher: Satã é muito estudioso, sabe? Não me dá trabalho...

Mulher grávida: Posso ser indiscreta?

Mulher: Claro.

Mulher grávida: Satã brinca de boneca ou de carrinho?

Mulher: Satã brinca de Banco Imobiliário.

Mulher grávida: Satã tem agenda ou caderneta?

Mulher: Satã tem Bloco de notas.

Mulher grávida: Satã faz aula de futebol ou de balet?

Mulher: Satã faz yoga.

Mulher grávida: Satã é ótimo.

Mulher: É...

(silêncio)

Mulher grávida: O que foi? Está apreensiva?

Mulher: É que... Ai... Não sei...

Mulher grávida: (sempre natural) Alguma coisa com Satã?

Mulher: É que... Não sei se devo...

Mulher grávida: Amiga, conta. Abre seu coração.

Mulher: Posso te contar um segredo?

Mulher grávida: Claro...

Mulher: É que eu estou meio preocupada...sabe? De lá pra cá Satã cismou que quer fazer teatro...

Mulher grávida: Hum...

Mulher: Pois é!

Mulher grávida: Teatro é fogo...

Mulher: Justamente. Você sabe como é né... Vai que...Não quero nem pensar!

Mulher grávida: Ah, mas daqui a pouco ele tira isso da cabeça.

Mulher: Não sei. Satã tem falado muito disso ultimamente...

Mulher grávida: Ah Amiga, que bobagem... Vai ser lindo ver sua cria nos palcos!

Mulher: Aí é que tá! Satã não quer atuar!

Mulher grávida: Não? Ora! E o que ele quer fazer?

Mulher: (sussurra com cuidado) Criticas no jornal O GLOBO!

Mulher grávida: Ai...

fim

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“É o jeito”

De Jô Bilac

Personagens:

Mulher

Flanelinha

Funcionário

(Bossa nova no fundo. Tudo lindo. Dona de casa com um neném no colo. Ela está no supermercado, fazendo compras. Empurra um carrinho de compras, tem uma caixa de cereal na mão, confere o preço.)

Flanelinha: (aparece do nada) Esquerda, esquerda... Isso, vem vindo, manobra, manobra!

( A mulher sem entender)

Flanelinha: Pode dar ré, dá ré. Isso! Contorna pela esquerda! Isso! Vem que dá, vem que dá! Isso. (estende a mão) Três pratas.

Mulher: (sem entender) Oi?

Flanelinha: Três pratas.

Mulher: Do que você está falando?

Flanelinha: Estou falando de Dindin, aqué, mango, faz me rir, bufunfa, moeda, gaita, merréis, ducados, dólares, euros, reais! Três!

Mulher: Eu não vou te pagar.

Flanelinha: Qual é tia?

Mulher: Eu não te pedi pra fazer nada.

Flanelinha: Na moral tia...

Mulher: Eu não sou sua tia!

Flanelinha: Ajuda o trabalhador.

Mulher: Trabalhador...?

Flanelinha: Trabalhador sim, claro! (muito malandro) Essa é a minha área. Eu fico aqui olhando o carrinho da senhora, enquanto a senhora vai buscar o peitipoá, o leite em pó, a sardinha em lata, as paradas todas... Então: não deixo ninguém mexer nas compras da senhora, não deixo ninguém roubar nada, não deixo os funcionários rebocarem seu carrinho, e ainda por cima, se ficar pesado: eu dou uma ajuda pra empurrar! E tudo isso só por três pratas!

Mulher: Não, obrigada. Realmente eu não quero.

Flanelinha: (com cara de pena) Três pratas, moça. A senhora não vai ficar mais rica nem mais pobre por causa de três pratas.

Mulher: Não quero. Obrigada.

Flanelinha: Três pratas, moça! Não custa nem esse creme aí que a senhora compra! Deixa de ser canguinha.

Mulher: Eu já disse que não. Por favor.

Flanelinha: Eu não estou pedindo esmola não, viu? Eu só estou pedindo uma colaboração para um trabalhador independente, que assim como a senhora tem seu direitos e merece respeito!

Mulher: Meu querido, sito muito, eu também sou trabalhadora e valorizo o meu dinheiro, não sou obrigada a pagar por um serviço que eu não pedi! Tenho esse direito. Posso?

Flanelinha: Poder pode, né... Poder pode. (de canto de boca) Mas depois a gente faz besteira, aí não vai reclamar...

Mulher: O que?

Flanelinha: O que o que?

Mulher: O que foi que você disse?

Flanelinha: oi?

Mulher: Isso que você acabou de dizer... Repete.

Flanelinha: Eu não disse nada!

Mulher: Disse sim.

Flanelinha: Não disse.

Mulher: Disse: “depois a gente faz besteira, aí não vai reclamar...” Eu ouvi!

Flanelinha: Então se ouviu por que perguntou?

Mulher: Eu quis ter certeza.

Flanelinha: De que?

Mulher: De que você está me ameaçando!

Flanelinha: (cínico) Eu não estou ameaçando a senhora!

Mulher: Está sim!

Flanelinha: Eu te amecei?!

Mulher: Me coagiu ! Disse que vai fazer besteira e isso significa que você vai se vingar de mim só porque não te dei três pratas!

Flanelinha: (mais cínico) Eu não disse nada...

Mulher: Disse sim!

Flanelinha: A senhora é que está colocando palavras na minha boca.

Mulher: (exaltada) Disse sim! Vai se vingar de mim porque “não colaborei” com o “trabalhador independente”.

Flanelinha: Eu falei essas palavras “ se vingar”?

Mulher: Você não vai me intimidar! Não pode!

Flanelinha: Eu disse que ia me vingar?

Mulher: Você disse que vai fazer besteira! Eu ouvi!

Flanelinha: Não coloque palavras na minha boca!

Mulher: Não estou colocando palavras na sua boca! Eu ouvi! Vai fazer besteira e eu não vou poder reclamar!

Flanelinha: A senhora entenda como quiser!

Mulher: Então eu posso entender tudo isso como uma ameaça?

Flanelinha: Se assim preferir!

Mulher: Vai zonear as minhas compras, sumir com o meu carrinho!

Flanelinha: (perigoso) Pode ser que ele suma mesmo, aqui nesse supermercado vive sumindo carrinhos... Assim, do nada! Quando menos se espera: eles somem! Mas é como mandei a letra: se a senhora me pagar três pratas, evita a dor de cabeça! Eu fico aqui vigiando o carrinho da senhora e não deixo nenhum malandro se aproveitar... Mas se não pagar, não vou poder garantir nada...

Mulher: Está me chantageando...

Flanelinha: Entenda como quiser.

Mulher: Eu entendo isso como uma intimidação baixa e cruel para uma mulher que paga os seus impostos em dia.

Flanelinha: Mas é isso mesmo... Essa é a minha área e se a senhora não colaborar comigo eu não me responsabilizo por suas compras nesse carrinho!!!!

Mulher: (satisfeita) Era exatamente o que eu queria ouvir!

Flanelinha: Oi?

Mulher: O senhor está preso por uma cidadã! (a mulher saca um apito e toca alto, surgem policiais por todos os lados cercando o homem)

Flanelinha: O que isso?

Mulher: (firme) Cana, cadeia, xadrez, prisão, xilindró, sol quadrado, cela, buraco, pavilhão, pai de todos, fura bolo, mata piolho! Fim da linha, meu chapa. Você rodou malandro! Se meteu com a cidadã errada!

Flanelinha: (sendo algemado pelos policiais) Eu sou trabalhador! Eu sou trabalhador!!!

Mulher: Levem esse patife daqui! Ele agora vai manobrar pano de chão dentro do vaso!!

Flanelinha: (sai arrastado) Não! Eu só quero trabalhar! Não!!!!!!

Mulher: Obrigada rapazes! Bom contar com a eficácia da segurança pública. (sorri. Com a caixa de cereal na mão, recuperando a tranqüilidade, beijando a testa do seu neném. Volta a bossa nova.)

(entra um funcionário do supermercado)

Funcionário: Senhora...

Mulher: Sim?

Funcionário: Aqui está a sua guia para estacionar o carrinho da senhora no corredor.

Mulher: O que?

Funcionário: São cinco pratas, deverão ser pagas diretas no caixa.

Mulher: Guia? Mas o corredor do supermercado não é livre? Eu não posso simplesmente parar o meu carrinho sem precisar pagar nada a ninguém?

Funcionário: Não. (sorri)

Mulher: Mas não é possível! Agora tudo é pago?

Funcionário: Sim. (sorrindo com águia estendida)

Mulher: Isso é um serviço independente de um trabalhador autônomo?

Funcionário: Não. Isso é um trabalho regulamentado com carteira assinada promovido por grandes estatais. (estende a guia num gesto mais impositivo)

Mulher: E se eu não pagar? O que vai fazer?

Funcionário: (sorrindo) Irei contar com a eficácia da segurança pública.

(entram os mesmo policiais olhando para ela, ameaçadores)

Mulher: ( pega a guia constrangida) Cinco pratas, né...

Funcionário: Por quatro horas, se ultrapassar o limite do tempo, sobe para oito.

Mulher: Oito??? Poxa, isso não pode ser assim e... (policiais avançam) Aceita cartão? (sorri)

Funcionários: Sim senhora. Alguma dúvida mais?

Mulher: (sorri amarelo) Não obrigada.

Funcionário: Por nada. Tenha um bom dia. (sai)

Mulher: (olha para o cereal e olha para a guia. Desiste do cereal e o devolve para a prateleira. Sai de fininho)

Fim.


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"Festa estranha com gente esquisita"

de Jô Bilac

Personagens:
Kid: Agora apresentadora de tv.
Muriel: Linda e sorridente.
Equipe de tv.
Convidados da festa.

(festa tipo piano bar. Um garçom servindo canapés. Todos com traje de gala. Kid Bauhaus tentando achar um lugar pra apagar seu cigarro. Avista Muriel.)

Kid: Olá.

Muriel: Olá.

Kid: Posso te entrevistar?

Muriel: Revista?

Kid: Tv aberta.

Muriel: Claro.

Kid: Vai ser rápido, tá? Eu vou fazer umas pergutinhas, você me responde e pronto acabou.

Muriel: Tá.

Kid: Você fuma?

Muriel: Já começou?

Kid: Você está vendo a câmera ligada?

Muriel: Não.

Kid: Então como é que já poderia ter começado?

Muriel: Desculpe.

Kid: Você fuma?

Muriel:(interessada) O que?

Kid: Cigarro.

Muriel: Não...

Kid: (num suspiro, para si mesma) Ai que saco... Onde é que eu jogo essa merda?

Muriel: A Vanuza diz que quando não sabemos onde enfiar o caroço da azeitona, é melhor engolir. Por que você não faz o mesmo com seu cigarro? hahahahahahhahaha

Kid: Acho que prefiro enfiar noutro lugar...

Voz: Vai entrar no ar em 5, 4,3,2,1 e...

Kid: (animadíssima ao microfone, pisando no cigarro) Boa noite!!! Aqui é Kid Bauhaus , invadindo mais uma festa da alta sociedade, cheia, muito, muito, muito cheia de gente beeeeeem interessante. Estamos aqui com ela: maravilhosa. Que está dando pinta horrores com seu lindo rabo de peixe cintilante. Quem fez esse seu vestido, meu amor?

Muriel: Esse vestido é da coleção do Daren Chandler, inédita por aqui. E que por acaso eu...

Kid: Que maravilha! Ela arrasa muito! Mas diz aí, o que você anda fazendo?

Muriel: Várias coisas. Eu tenho um projeto de...

Kid: Projetos! Ela é arquiteta! Maravilhosa!

Muriel: Não, na verdade eu sou ex-modelo e semana que vem...

Kid: Semana que vem tá muito longe, meu amor! O imediatismo contemporâneo faz com que o amanhã seja uma possibilidade distante e abstrata!

Muriel: (puxa o foco) Estarei lançando o meu livro amanhã!

Kid: Seu livro é sobre o que exatamente?

Muriel: (nítida mentira) Ah, não vou contar, senão estraga a surpresa.

Kid: Conta!

Muriel: Melhor não...

Kid: Conta! Conta! Conta!

Muriel: Não.

Kid: Olha! Ela é muuuuuito misteriosa.

Muriel: É que eu sempre acreditei que...

Kid: Eu também acreditei em muitas coisas, meu amor! Acreditei no Guilherme que me traiu com a Vânia, acreditei no Luiz Cláudio que me roubou 80 reais, acreditei no Samuel que era gay e alcóolatra! Você acredita em mim?

Muriel: (comovida) Acredito sim, claro...

Kid: (cara de pau) Então me empresta 20 pratas... To dura... Quero ir embora de táxi...

Muriel: O que?

Kid: Nada, esquece! Olha, vou fazer um bate bola, tá. (para a câmera) Bate bola _ pra você que não sabe do que se trata_ é um joguinho de perguntas e respostas breves. Um ping pong. Um tete a tete. Um lupa lupa. Um dimi dimi. Um papo reto. Um fala que eu te escuto. Um, ah, já deu pra entender, né? Então, vamos lá! (para Muriel) Uma mulher elegante.

Muriel: A primeira dama.

Kid: Um tom de vermelho.

Muriel: Bordô.

Kid: Um sabor.

Muriel: Carambola.

Kid: Uma paisagem.

Muriel: Todas de Monet.

Kid: Você posaria nua?

Muriel: Depende das circunstâncias.

Kid: Você mataria por amor?

Muriel: Idem.

Kid: É proibido proibir?

Muriel: O que exatamente?

Kid: As coisas todas...

Muriel: Ah... Depende...

Kid: Do Sunda?

Muriel: Que Sunda?

Kid: Aquele que comeu a sua bunda! (cai na gargalhada) Aiaiaiaiaiiaaiaiaiai desculpa! Sacanagem! Ai gente... Não resisto!

(Muriel sorriso amarelo)

Kid: Mas, continuando: Você levaria o que para uma ilha deserta?

Muriel: Hidratante.

Kid: Você foi pra Disney quando fez quinze anos?

Muriel: Sim.

Kid: Você teria um caso com o marido de sua melhor amiga?

Muriel: Não.

Kid: Você foi convidada pra essa festa?

Muriel: (ri)

Kid: Estou falando sério.

(tempo. Constrangimento de Muriel.)

Muriel: Mas é claro.

Kid: Deixa de ser mentirosinha.

Muriel: Não estou mentindo. Eu fui convidada.

Kid: Ok, não vou discutir. Olhe para a minha câmera e deixe um recado para o

aniversariante.

Muriel: (se alinha. Sorri) Eu te desejo tudo de bom, que a sua estrela brilhe cada vez mais! Uma pessoa iluminada como você, merece só o que há de bom nessa vida. Saúde e paz! Sempre! Beijo! (manda beijinho)

Kid: Você é muito amiga do Aurélio.

Muriel: Admiro muito o trabalho dele.

Kid: Pena que hoje não é aniversário dele. Isso é uma colação de grau.

Muriel: (desconcertada) Mas eu achei que fosse o aniversário do Aurélio.

Kid: Falsa! Aurélio foi um nome que acabei de inventar.

Muriel: Deve estar havendo algum engano.

Kid: O engano aqui é você, minha filha! Está sendo desmascarada para todo o país! Chacota nacional! Pagadora de mico com carteira assinada.

Muriel: Eu vou processar vocês!

Kid: Isso, se descontrola mesmo! Faz barraco na festa alheia.

Muriel: Tudo bem, eu não fui convidada, mas e daí? Estou muito bem comportada e abrilhantando essa colação de grau.

Kid: (para a câmera) Senhores telespectadores, vejam até que ponto alguém pode chegar. Ela jura que abrilhanta uma colação de grau, está tão preocupada consigo mesma, incapaz de perceber o outro e nem repara que isso aqui é um casamento. Olha lá a noiva, sua estúpida.

Muriel: (descontrolada) Por que você está fazendo isso comigo?

Kid: Porque pessoas como você, que se alimentam do coquetel de terceiros, pra se promover, merecem a gongada da humilhação. Que entre o gongo! (Kid puxa um gongo e bate nele).

Muriel: Já chega! Isso aqui já está demais. Amanhã, meus advogados entrarão em contato com os seus.

Kid: Espere Muriel!

Muriel: Me larga! Sua escrota! Você quer o que , héin? Quer ganhar ibope nesse seu programa canalha, ferrando a vida dos outros? Acha mesmo interessante fazer seus entrevistados de palhaço? Por quê? Deixa de ser ridícula e vai caçar o que fazer!

Kid: Muriel...

Muriel: Eu já disse pra me largar!

Kid: Ninguém está te segurando.

Muriel: Me larga!

Kid: (tentando manter a ordem) Olha o escândalo...

Muriel: Estou cagando! Ouviu? Cagando!!! Estou Envelhecendo dez anos em dez semanas. Comendo essa bosta sem gosto, mastigando, engolindo e achando tudo ótimo. Sorrindo o tempo todo, tentando encontrar uma merda de justificativa que amenize essa falta de perspectiva, tudo pra não acordar num domingo fudido e meter uma bala na cabeça ou se jogar do décimo quinto andar ao som de Elis Regina! Tudo pra não pensar que o que eu fiz ou deixei de fazer, não faz a mínima diferença pra ninguém e muito menos pra mim mesma. Tudo pra tentar encontrar uma chance, mesma que pequena, pra continuar mantendo a coluna ereta e o sorriso esticado, e esquecer por um segundo a inexistência e o vazio que se abriu dentro de mim. Existe um esgoto em minha alma. E dentro dele, ratos. Eles me roem todas as noites. Não sei até quando mais posso agüentar.

(tempo)

Kid: Teatro expressionista?...

Muriel: (Num fiapo de voz) Neo realismo italiano.

Kid: E se eu te dissesse que tudo isso não passou de uma pegadinha, você acreditaria?

(Kid grita animadamente, todos da festa olham sorrindo.) Se eu dissesse que na verdade essa é a festa surpresa do seu aniversário, você acreditaria? Parabéns pra você Muriel!!!!

(toda festa cantando parabéns pra Muriel)

Muriel: (emocionadíssima) Eu... Eu não esperava...

Kid: Olha o bolo com sua mãe!!!!

( a mãe de Muriel com um bolo na mão)

(Muriel chorando, é aplaudida por todos e ela vai abraçar sua mãe)

(muita emoção)

Kid: (para as câmeras, tom Discovery, quase num sussurro) O bicho homem realmente me assusta cada vez mais, queridos telespectadores. Acabamos de registrar mais uma manifestação social de um refinamento torpe e maquiavélico. E se eu dissesse pra vocês,daí de casa, que aquela mulher NÃO é a mãe dela e sim uma charlatã que se aproveitou do momento pra também aparecer na tv, vocês acreditariam? E se eu te dissesse que essa festa é uma grande farsa, pois ninguém de fato, sabe o que está fazendo aqui e por isso não se surpreendem com mais nada, você acreditaria? E se eu te dissesse que essas pessoas lançam livros, fazem show, apresentam programas, e ainda se submetem a ficar com roupas de banho pegando sabonetes em banheiras ao lado de modelos seminuas, você acreditaria? Marie Clair: Chique é ser inteligente. Tem coisas que só a Philco faz por você. Imagem não é nada, sede é tudo. Para todas as outras coisas existe: Master Card! Voltamos logo após os proclames do plim plim.

Fim

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FOME de Jô BIlac

Personagens:

Honey , voluntariosa e linda
Darling, voluntariosa e linda

Cherry, voluntariosa e linda


Tymoty, voluntariado e aparvalhado.

(Três moças lindíssimas, passeando pelo parque, girando suas sombrinhas japonesas apoiadas no ombro, sorrindo de lado)

Honey: Quando quer se acasalar, o escorpião rei tenta posicionar sua fêmea numa gota de esperma depositada no chão. Num movimento que mais parece uma dança e que pode durar dias. No entanto, vencido, o escorpião rei cai cansado, servindo de alimento para sua fêmea ávida de fome por tanta espera.

Darling: Para o louvadeus macho, a cópula é um ato de sacrifício e prazer. No auge do ato sexual, o louvadeus macho tem sua cabeça devorada por sua fêmea que é até três vezes maior que ele. E o mais incrível é que mesmo sem cabeça, o macho permanece frenético até o fim da cópula.

Cherry - Assim como usamos o queijo para atrair o rato, as flores carnívoras usam de suas cores exuberantes para atrair as suas vítimas incautas, que se deixam seduzir pela beleza dessa devoradora do reino animal. Quanto mais bela, mais perigosa.

Combinaram assim: Segundas e quartas seriam os dias de Darling _ Tymoty lhe juraria amor eterno e cederia tão somente às suas vontades. Nas terças e sextas, ficaria com Honey _ Tymoty lhe reservaria todas as atenções, e a trataria como uma rainha. As quintas e sábados eram de Cherry_ Tymoty esqueceria as outras e a faria sentir-se única. Sobrava o Domingo, no qual Tymoty se resguardava em sua merecido descanso!

Assim, em acordo, as três viviam na mais perfeita harmonia. Existia somente uma regra, a única, essa que em hipótese alguma poderia ser quebrada: tudo o que Tymoty fizesse por uma, deveria fazer pelas outras.


Segunda-feira: Tymoty e Darling estão jantando e surge uma vontade imensa de um dos dois, e se beijam com muito desejo. Darling de repente...


Darling - Eu quero te comer....
Tymoty - O que?
Darling - Eu quero te comer....
Tymoty - Como assim?
Darling - Te comer. Eu quero te comer....
Tymoty - Aqui?
Darling - Agora.
Tymoty - Não.... agora não.
Darling - Tá vendo? Eu não disse? Você não me ama! Não o suficiente! Aposto que se fosse com elas cederia no mesmo instante, sem hesitar! Mas comigo não... me nega até o último instante!
Tymoty - Não é verdade, Darling, eu amo você. Eu apenas acho que essa não é a hora, nem o lugar...
Darling - Não Tymoty, você não me ama! Se me amasse mesmo, cederia às minhas vontades! Quem ama de verdade não mede esforços para agradar a pessoa amada!

Tymoty: Não é assim que a banda toca, lindinha...

Darling: Quer saber? Cansei!! Amor de conta gotas não me interessa! Você não coloca mais seus olhos em mim... Me esqueça de uma vez por todas e nunca mais dirija uma palavra aos meu ouvidos! Você agora é carta fora do baralho! Adeus, Tymoty! !
Tymoty -(subto) Darling: Qual parte?
Darling - (volta, maliciosa como um demônio adocicado) O braço...

Cortou uma parte do braço e comeu logo em seguida...

Darling - Hum.............fantástico...incrível... (quase gozando enquanto come)....você é muito gostoso, sabia?....uma delícia....
Tymoty - Você gosta mesmo?
Darling - Hunrum...(tempo)
Tymoty - Quer mais um pedaço?
Darling - Quero...

Mutilou o braço por inteiro. Era incrível o prazer que sentia em come-lo. Um ato de amor único, genuíno, quase santo.

Terça-feira, Tymoty e Honey. Beijam-se com muito desejo. Honey, de repente....


Honey - O que aconteceu com seu braço?
Tymoty - Meu braço? Nada...
Honey - Cadê seu braço? Tymoty, eu te fiz uma pergunta!

(sem resposta)

Honey: Tymoty, eu só vou perguntar mais uma vez: Cadê- o - seu - braço????!!!
Tymoty - Ela comeu.
Honey - (cai das nuvens) O que? Você deixou! Como você é burro Tymoty! Um idiota! A vontade que eu tenho é de socar a sua fuça pra você falar fofo uma semana!

Tymoty: Honey... Ela insitiu, não tive como negar...

Honey: Essa mulherzinha usa de todos os truques para roubar você de mim, e como se não bastasse, agora quer te tirar de mim aos pedaços!
Tymoty - Honey... eu tive que ceder... você sabe, eu amo vocês e faço tudo para não perde-las...entenda, por favor! Eu faria a mesma coisa por você...
(tempo)
Honey - (imperativa) Eu quero o outro braço...
Tymoty - (ri) Então se eu te der o outro braço, você não fica brava?
Honey - (infantil) Não.
Comeu enfim. Era como se tivesse, pela primeira vez, sentido em sua língua o verdadeiro gosto do amor... e como era maravilhoso...um orgasmo aos pedacinhos...


Honey - Eu quero mais um pedaço! Só mais um pedacinho... Você não vai me negar...eu sei que não... eu sei...

Cedeu a batata da perna. Sentia um prazer indescritível em ser comido com tanto desejo. Ver sua fêmea mastigá-lo com tanta volúpia o fazia chegar ao mais extremo gozo....

Quinta-feira . Cherry beija Tymoty, quase lhe arranca um pedaço.

Tymoty - Ai!
Cherry - Desculpa, meu amor.... te machuquei?
Tymoty - (sempre muito querido) Só um pouquinho...
(percebe que tirou sangue, lambe o moço)
Cherry - Seus braços...
Tymoty - Elas comeram... entenda, eu dei uma pra Darling e tive que fazer o mesmo pela Honey.
Cherry - (ÁCIDA) Um Braço pra Darling, um braço pra Honey... ( voz animalesca) Cadê o braço da Cherry???????

Tymoty: Cherry, tem coisa muito melhor que um braço...

Cherry:Aposto que elas nem estavam com tanta vontade assim... fazem mais para me afrontar! Invejosas...
Tymoty - Cherry...
Cherry - (matraca) É verdade! Você as defende, mas eu sei perfeitamente o tipo de mulherzinhas que elas são...pistoleiras...! Aposto que você nem relutou pra dar seus braços para elas... eu tô cansada dessas mulheres, ouviu, cansada! A vontade que tenho é de dar um basta em tudo isso! Por que você sabe Tymoty, mais cedo ou mais tarde, você vai TER que escolher! Pois a vida é feita de escolhas e se você não está pronto pra fazer a sua, talvez você não esteja maduro suficiente pra lidar com responsabilidades em sua vida, porque afinal de contas...
Tymoty - (subto) Quer um pedaço da minha perna?
Cherry - (surpresa) O que?
Tymoty - Eu te dou um pedaço da minha perna se quiser...ou melhor, a minha perna inteira...você gosta tanto...
Cherry (tempo. Emocionada)... Tymoty...que lindo!

Devorou em poucos segundos a perna do rapaz. No dia seguinte, ao ver Honey, teve que fazer o mesmo pela moça. Era a regra!

Na segunda cedeu o glúteo.
Na terça um pedaço do peito.
Na quarta a bochecha.
À cada dia que passava, as meninas ficavam cada vez mais famintas, incontroláveis.
Até que no Domingo Tymoty lhes nega o coração...

(grito das três)

Assim, Tymoty marca um encontro entre os quatro, o primeiro e último...


Darling - Sinto que nosso Tymoty irá nos abandonar...
Honey - Eu sei... e isso tudo é culpa sua!
Cherry - Minha?
Honey - Sua! Não deixa o pobrezinho em paz...
Cherry - Ah! Não sou eu que fico mordiscando o meu Tymoty de minuto em minuto!
Honey - Meu Tymoty volta aos pedaços dos seus encontros!
Cherry: Seu Tymoty? Hahaha! Minha filha, se localize!!!!

Darling: Calma, gente! Todo mundo comeu um pouqinho!

Honey: Um pouquinho uma ova!Você com essa boca grande fez questão de aboncahar elezinho todo! Sua biscateira!

Cherry: Ui... Chamou de Biscateira...Eu nâo deixava!

Darling: O que você disse?

Honey: Biscateira! Dalila, Jezebel, Lilith pagã, Salomé, biscateira de marca maior!!!!

Darling: Retire o que disse.

Honey: Nem que a vaca tussa!

Cherry: Ui...Nem que a vaca tussa! Chamou de vaca nas entrelinhas!!! Pra quem saber ler: um pingo é ponto!

Darling: Minha filha, dobre a sua lingua, lava com sabão pra falar no meu nome!

Honey: Biscateira!

Cherry: Ui! Ui! Ui! (bate boca generalizado, até que Honey e Darling se dão conta das provocções de Cherry e finalmente as três rolam no chão num embate corporal)

Tymoty - (entra uma cadeira de rodas motorizada, ele agora é só um toquinho, com muita dificuldade ao falar) Chega!! (tempo) Acabou.
Darling - Porque?
Tymoty - Não dá mais... essa fome de vocês não é normal... é melhor pararmos...
Honey - Eu sabia! Eu sabia que não me amava o bastante! Eu já estava adivinhando que acontecer mais cedo ou mais tarde!
Tymoty - Não dá mais, será que você não consegue entender.
Cherry - Mais um pedacinho... por favor...eu te imploro....
Tymoty - Não...não...
Honey - Eu não consigo comer mais nada que não seja você...eu preciso de você, eu necessito! Por favor...por favor...
Tymoty - Não dá mais...
Darling - Por que? (quase infantil)
Tymoty - Escuta, acabou. Não dá mais! Isso tudo tá acabando comigo...não está fazendo bem pra gente.... não tá fazendo bem pra voces... não tá fazendo bem pra mim! Olha pra mim! Vocês são lindas............ Terrivelmente lindas e isso é minha cruz e delícia.......... Seria incapaz de escolher por uma de vocês...... São pequenas deusas com boquinhas vermelhas que amo beijar, mas que às vezes me mordem com mais força do que realmente posso suportar... Esses olhinhos oblíquos, brilham... mas não sei exatamente por qual natureza de querência. Às vezes chego a ver voces como bichos famintos, me vigiando, que vai me devorar por inteiro a qualquer momento............às vezes chego a sentir medo de vocês.............da maneira como me olham............... Não sei se por desejo, ou FOME!
Honey - (num delírio , transportada) É isso mesmo, Tymoty! Sentimos fome de você, não percebe? Ontem mesmo, um rapaz se ofereceu todo para mim. Eu poderia come-lo todinho, mas não é ele que eu quero, é você, só você! Essa dependência me mata, ou você acha que é fácil suportar essa fome...essa ânsia... eu TE quero...cada pedaço seu...
Darling - (desaba numa crise de choro) Você não pode me deixar assim, não pode.... o que é que eu vou fazer se você for embora?....Me diz! Me diz....
Cherry - Olha pra mim, Tymoty...Olha...Eu sou tão linda... Tão linda!!!! Olha pra mim!!!! (numa possessão de choro) Olha pra mim.... Eu sou tão linda....e tão triste.... tão vazia...... nâo me deixa.......

(uma ladainha feminia toma todo o lugar, a frase "Não me deixa" vai ecoando quase como um coro trágico numa melodia vampírica, chorosa, cruel. As três se arrastam no chão, delírio general)


Tymoty - (sem emoção alguma, num fiapo de voz) Vocês querem o ombro.....
Cherry_ (despertando do transe) Inteiro?
Tymoty - (tempo breve) Inteiro.
Honey - O direito e o esquerdo?
Tymoty - (constatação, entrega) O direito e o esquerdo....

Darling- As orelhas...

Honey_ As vísceras!!!!!

Cherry_ As pálpebras...


(Elas vão se aproximando de Tymoty, como se estivessem diante de uma presa, num jogo incansável, sempre pedindo por mais uma parte do rapaz. A luz vai diminuindo até se apagar por completo, só podendo ser escutado os gritos de Tymoty, sendo devorado).

FIM.


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Jogos

personagens: Mike e Lola

(Mike e Lola, um casal diferente, sempre buscando novidades na vida sexual)

(os dois num parque de diversões particular)

Mike: O que foi Lola? Não está se divertindo...?

Lola: Ai, Mike... Parque de diversões me faz lembrar da nossa filhinha que foi para dysney e nunca mais voltou... Saudade dela!

Mike: Uma ingrata! Não gosto nem de lembrar...

Lola: Esses brinquedos todos! Essa alegria desenfreada! Essa gente pobre com vontade de ser feliz. Me deprime. Manda eles embora?

Mike: (enxota) Vambora cambada! Sai! Todo mundo ralando! Bora, bora!!! Acabou a mamata! Vambora!!! Bora!!! Circulando, circulando!!!

(todos saem, Mike volta para a esposa)

Mike: está melhor agora, meu amor?

Lola: Não...

Mike: O que foi?

Lola: Ai...Tô com uma angústia sabe? Um negócio...

Mike: Quer destribuir dinheiro? Podemos!!! Ou então juntar meia dúzia de infortunados e sortear uma casa própria... O que acha? Podemos também.

Lola: Mike!!!... A gente sempre faz as mesmas coisas... A nossa vida anda muito sem sentido ultimamente...

Mike: E o que você quer que eu faça? Diz meu anjinho...

Lola: Eu quero uma coisa diferente... Mais humana sabe?

Mike: Pra que?

Lola: Ah... Sei lá... Pra variar...Você não quer se sentir um ser humano melhor? Fazer o bem? Praticar coisas boas... Fazer algo realmente importante?

Mike: Lola, a gente faz isso o tempo todo...

Lola: Mas eu quero algo melhor...algo maior! algo realmente grandioso, sabe? algo como... hum...... algo como.... Os jogos olimpicos! Isso!

Mike: O que tem?

Lola: Os jogos Olimpicos de 2016! Bem que podia ser aqui em casa, hein...

Mike: Mas vai caber tanta gente?

Lola: Ah, a gente da um jeitinho... Faz uma farra! Hein, Mike! Não ia ser legal? Ter um monte de esportistas por aqui...suados...viris... lutando pelo ouro olímpico!

Mike: Hum...que excitante...

Lola: Seremos como os antigos imperadores romanos, com seus jogos de poder! Dando pão e circo ao nosso povo! Eles vão nos amar!

Mike: Já nos amam, meu amor, por nossa causa o Cristo é a sétima maravilha do mundo.

Lola: isso fichinha, Mike! Jornal de ontem! Notícia velha! Os jogos olímpicos sim é o que vai impressionar! Percebe? Entraremos nos anais dessas pessoas.

Mike: Lolinha... Anais... Que delícia....

Lola: Isso sim seria divertido...

Mike: Mas 2016 está tão longe...Por que não transferimos logo? Pra que esperar até lá? Com uma ligação resolvo isso, quer ver?

Lola: Não, meu bebê. Agora não... precisamos de tempo para organizar tudo, não gosto de receber ninguém assim, de repente! Na bagunça! E além do mais essa cidade anda muito perigosa... Vai que, sei lá, tentam derrubar os helicópteros dos nossos visitantes...Vai ficar feio . Não pega bem... Vão nos achincalhar! Primeiro organizamos a casa e depois sim daremos a festa!

Mike: Lola, lola... O que seria da minha vida sem você?

Lola: Agora, vamos! Precisamos nos apressar. Tô sabendo que Madri tá querendo as olimpiadas por lá...

Mike: Mas é nunca! Com um telefonema resolvo isso! A tocha olímpica será atochada aqui !

Lola: Ui, Mike...

Mike: O que foi, Lolinha?

Lola: é que esse papo de tocha, atochada, fogo olímpico, ai...me deixou com uma vontade!!!!

Mike: Vontade de que , héin...?

Lola: Ai, com uma vontade de treinar salto com vara...

Mike: Sério...?

Lola: Seríssimo!

Mike: Vamos providenciar essa vara agora!

Lola: Hiroshima eu! Nagazaki você!

(se agarram num beijo violento)

fim

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NAVALHA de Jô Bilac

1: Detestei a peça.

2: Por que?

1: Achei vulgar...

2: Vulgar?

1: Esperava uma peça família, sabe?

2: O que você quer dizer com "Uma peça família"?

1: Ah... Uma peça menos apelativa, esse negócio de querer chocar não é comigo. Muito anos 80.

2: A peça foi escrita nos final dos 70.

1: Ah...Não gostei.

2: É super atual...Os atores estão ótimos. Como você não gostou?

1:Ih, Sérgio...Não gostei e pronto. Me deixa!

2: Não pode ser assim. Não gostar e pronto, tem que saber a razão, a fonte, a raiz.

1: Eu não posso só não gostar?

2: Faz um esforço, Marisa.

1: Que chato... Não quero me esforçar pra refletir sobre algo que não despertou meu interesse. Posso?

2: Não pode. Fica superficial.

1: Eu sou super superficial. Adoro ser superficial. Sou uma cidadã livre, com meus impostos em dia e tenho direito de ser superficial sim.

2: Tá vendo como você não sabe dialogar? Tudo pra você é na base do "encerra a questão". Isso dá câncer, Marisa. Câncer na garganta. Fica tudo entalado.

1: Que saco Sérgio, vou ao teatro com você e pego câncer!

2: Que saco, não! Ora essa! Que saco... veja só! Eu não sei de você, Marisa, mas eu quando vou ao cinema ou teatro, gosto de debater o que vi com a pessoa que está comigo. Do contrário, eu vinha sozinho. E não tem nada mais angustiante do que você sair de uma peça doido pra falar com alguém, saber o que achou, trocar idéias, redimensionar a sua existência e não ter esse alguém aqui... É muito triste... Eu fico tristinho.

1: Ai tá. Então por que você não gosta da minha mãe?

2: Ah, Marisa...Totalmente diferente.

1: Diz, Sérgio. Por que você não gosta da mamãe?

2: Ah, Marisa...Você sempre volta nesse assunto.

1: Estou esperando a resposta , Sérgio.

2: Ah, Marisa. Não gosto e pronto...

1: ué, Sérgio, não foi você que acabou de dizer da raiz, a fonte, o diabo a quatro?

2: É diferente...

1: Sei...

2: Não gosto da sua mãe...Porque sei lá, não gosto, não bateu o santo...

1: Nossa Sérgio, como você é profundo! Puta argumentação!

2: Não sacaneia, tá...

1: Fala, Sérgio! Por que você não gosta da mamãe?

2: Quer saber?

1: Diga.

2: Não gosto da sua mãe porque acho agressiva, ultrapassada e mal intencionada...

1: Digo o mesmo sobre a peça.

2: Quer comparar esse clássico nacional com a sua mãe?

1: Sérgio!

2: Ah, Marisa, leva mal não. Mas dizer que a sua mãe e a peça, estão no mesmo patamar, ah...não dá... Sua mãe é no máximo uma "Dona baratinha"!

1: E os seus pais são "O santo e a porca", porque pra aturar a sua mãe só sendo um santo!! E hoje você dorme no sofá!

2: Marisinha...

1: No sofá, Sérgio! E sabe qual é nome do filme? "A Era do gelo"...

FIM

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“Noite de gala”

De Jô Bilac

Personagens:

Marielle Moon

Nina Kovac

Joshua Scot

Comentarista

Dublador de Nina

Dublador de Joshua

(Premiação tipo Oscar. Luzes, música alta. Entram Nina Kovac e Joshua Scot, vestidos de gala. Nina com um envelope na mão)

(Nina e Joshua falam um dialeto qualquer. Vozes dublam os dois, simultaneamente, como acontece na transmissão do Oscar para o Brasil)

Comentarista: (enquanto fala o casal vai entrando) E voltamos com a premiação do Urso de Berlin, aí vemos a ex atriz pornô Nina Kovac, que foi presa ano passado por contrabando de êxtase e ao seu lado o galã adolescente Joshua Scot, campeão de bilheteria com “Prepúcio” e “Nua negra” . Eles vão anunciar o prêmio de melhor documentário existencialista independente com baixo orçamento e subjetividade lírica, latino americano.

Dublador de Joshua: Quando me disseram que Nina Kovac estaria ao meu lado nessa noite de premiação, logo pensei: meu deus, por que eu não trouxe a minha câmera? Sim, a minha câmera! Eu poderia mesmo filmar um documentário sobre a vida dessa mulher que tem muita história pra contar. Certamente eu ganharia esse prêmio. Sim. Eu ganharia sim. Com certeza. Ganharia sim. É. Ganharia.

Dubladora de Nina: Ah, Joshua, a melhor parte do filme seria censurada certamente.

(risos e aplausos efusivos do público)

Dubladora de Nina: Bom, vamos aos indicados de melhor Documentário existencialista independente com baixo orçamento e subjetividade lírica, latino americano. E os indicados são: “Eu matei a fome dos meus filhos e fui presa” de Juan Molina.

Comentarista: Filme lindo, da Venezuela, muito cruel, um soco no estômago. Um documentário precioso sobre essa sem teto que foi presa roubando tomates, e foi surrada, jogada na cadeia, rasparam a cabeça dela, uma coisa horrível. Muito forte a história.

Dublador de Joshua: “Koko loko” de Mercedes Buban.

Comentarista: Documentário mexicano, sobre essa dança que vem ganhando fama nas noites do México. Koko Loko, a polêmica dança que divide opiniões. Algumas acham que é uma insinuação ao sexo oral, outras acham que é apenas uma dança típica e popular. Bom filme. Um pouco superficial, mas interessante. A volta de Mercedes Buban ao cinema.

Dubladora de Nina: “Curto pacas” de Pedro Daniel Rondante.

Comentarista: “Curto pacas” Documentário muito bem realizado sobre a extinção das pacas no médio litoral argentino. O preferido da noite, sem dúvida. Deve levar o Urso, ao que tudo indica. Pedro Daniel Rondante é o queridinho de Berlin, fez muito sucesso com “A marcha dos sacis”, filme muito premiado pelo mundo. Enfim, deverá ser dele o urso desse ano.

Dublador de Joshua: “Irene” de Marielle Moon.

Comentarista: E por fim, “Irene” Documentário Brasileiro realizado pela socialaite Marielle Moon , que nunca fez nada em cinema mas ficou impressionada com a história de vida da Irene, mulher muda e surda, sem braços e sem pernas, que só se comunica piscando os olhos. Desenvolveu o alfabeto do piscar de olhos e hoje é faxineira e já deu depoimento no final da novela das oito que se passa no Leblon. “Irene” É o nosso representante brasileiro, mas duvido que ganhe de “Curto pacas”, não sei, acho difícil. Vamos ver.

Dublador de Joshua: Quer anunciar o vencedor, Nina?

Dubladora de Nina: Eu acho melhor não Joshua. Leia você, eu posso confundir as letras, estou muito em êxtase, se é que você me entende!

(risos e aplausos do público)

Comentarista: Taí a brincadeira de Nina Kovac referindo-se a sua prisão no ano passado.

Dublador de Joshua: E o prêmio vai para...

(Joshua abre o envelope)

Comentarista: Suspense... Vamos ver... Grande expectativa...

Dublador de Joshua: “Irene” de Marielle Moon!

(música alta, Marielle emocionadíssima saindo da platéia com sua taça de prosecco na mão, chorando, abraçando os atores, mandando beijo, presepada total.)

Comentarista: Olha só! Para a nossa surpresa! “Curto pacas” não levou dessa vez, deixando o Urso de ouro para o documentário brasileiro. Realmente é uma história tocante, comovente. Mereceu de fato. A zebra da noite, com certeza. Taí : “Irene” de Marielle Moon, documentário sobre a faxineira surda e muda, sem braços e sem pernas. Quem diria. Marielle que nunca fez nada em cinema, aliás, nunca fez nada na vida, tirou do próprio bolso o dinheiro do filme. Moradora do Alto Leblon, aristocrata zona sul. Que surpresa. Marielle Moon com “Irene”. Muito emocionada. Com a fitinha do nosso senhor do Bonfim no pulso.

Marielle: (com o urso na mão, emocionadíssima. Tentando controlar o choro. Fala em portugês) É muito significante estar aqui, ser reconhecida, com esse prêmio, nessa noite linda, cheia de gente linda e bem vestida. Eu fico muito emocionada e realmente se eu soubesse que iria ganhar teria comprado um vestido mais caro ou até mesmo teria feito uma redução de estômago, enfim. Obrigada Berlin, obrigada Brasil, obrigada Mandela, obrigada Madonna, obrigada a toda equipe que tornou possível a realização desse filme: papai, mamãe, tia Rosane, tio Sérgio, banco Santander, meu terceiro ex marido Carlos, Regina minha analista, devo estar esquecendo alguém com certeza... ah! Roleci minha amiga transexual que faz meu cabelo a mais de vinte anos... Quem mais...? Ah! Obrigada ao doutor Décio, que cuida dos meus hormônios, sem ele eu não poderia estar aqui... Quem mais...? Estou tão nervosa! Um minuto! Não posso esquecer ninguém! Ah! Ludmila, minha guia espiritual, que fez meu mapa astral. Ah! O Paulo, que emprestou a casa na Turquia para comemorar meu aniversário ano passado. A Cecille, minha amiga francesa que me dá dicas de beleza. Quem mais...? Ah! Sim! Como eu poderia esquecer? Gente! Que cabeça a minha! É claro, não poderia deixar de agradecer a esse ser muito, muito, muito especial, que é o verdadeiro responsável por isso tudo e que merecia estar aqui nesta festa, mas infelizmente não pôde, por puro preconceito, porque sim, ainda contamos com esses moralistas tacanhos que não passam de orangotangos de smoking... Bom, mas eu queria agradecer a ela que me inspirou a entrar nessa batalha, que sem ela nada disso seria possível, esse ser que me enche de vida e esperança, com ela percebo a maravilha que é estar viva em comunhão com o mundo, obrigada, esse urso é pra você: Lupi minha cadelinha basset. Mamãe ganhou ursinho, Lupinha! Ursinho pra você brincar! Mamãe deixa! Mamãe deixa! Lupinha linda, que foi injustiçada, barrada nessa festa, um absurdo! Pois tem muita gente aqui que não chega às patinhas da minha Lupi. Minha Lupi que já fez participação especial em “Thelma e Louise”, dividia camarim com Geena Davis ! Lupi, minha filhinha, esse ursinho é pra você!!!

(música sobe, aplausos)

(Marielle volta)

Marielle: (desesperada, pede mais um momento para falar. Baixam a música) Ah! Desculpe, desculpe, serei breve, juro! Sú um minutinho! É que esqueci de falar da Irene, olha que cabeça a minha! A Irene que dá nome o filme, a mocinha do documentário. Que gafe, meu Deus! Que gafe! Preciso falar da Irene! Aliás, preciso falar com a Irene! Irene, meu amor, pode tirar aquela folga que estou te devendo há anos, mas não abusa, hein! A faxina da terça eu quero sem falta! E não se faz de surda não, que eu sei bem que passa aquilo aqui em baixo, aquela legendinha... Como é...? Aquele negócio... Close caption! Isso, o close caption tá aqui em baixo que eu sei... Então, aproveita, e coloca as cortinas do meu salão de jogos no varal, mas não vai misturar com as toalhas de mesa da minha switte hall. Olha lá, hein Irene, é tudo da França, nem 10 anos do seu salário paga, então toma cuidado! Ah, e não se esqueça de passar um paninho no meu piano de calda Luis XV, por favor... Porque segunda recebo o desembargador e sua esposa e a gente deve fazer uma farrinha, e você sabe que quando a Astrid se empolga, quer porque quer tocar piano! E depois chega o Luis Felipe, a Angélica, o Cardoso e aquela amante dele sebosa, Enfim! Vira festa! É isso Irene, preciso muito de você na terça! Não esquece, tá?! (canto de boca) A Irene é ótima, mas às vezes gosta de dar uma de João sem braço. Tem que ficar em cima, né... Empregada é fogo!


(música alta)


(fim)


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"Sonho de Miss" da série Kid Bauhaus de Jô Bilac

Personagens:

Erik, bonito e elegante.
Kid, um misto de Radical e Chic com Vani dos normais

( Kid aborda Erik, que passa por um beco escuro qualquer)

Kid: Me ajuda.

Erik: Meu deus, você está baleada, precisamos chamar ajuda médica...

Kid: Por favor, não!

Erik: Mas você está se esvaindo em sangue!

Kid: (firme) Não! (tempo) Só fica aqui comigo um tempo, até eu conseguir segurar a onda.

Erik: Olha, eu não posso ficar aqui passivo e ver você sangrar até morrer. Não mesmo!(tira o telefone do bolso) Eu vou chamar uma ambulância, não vai demorar e em pouco tempo tudo estará resol...

Kid: Esse sangue não é meu.

(silêncio)

Erik: ???

Kid: Isso mesmo que você ouviu: esse sangue não é meu.

(tempo)

Erik: Então... De quem é esse sangue?

Kid: Pam Loretti.

Erik: Pam Loretti, a Miss Simpatia????!!!!

Kid: Pam Loretti, a Mis Simpatia.

Erik: (tomado de horror) Você matou Pam Loretti, a Miss simpatia?

Kid: Não me encare como se eu fosse uma cadela leprosa banhada em esgoto. Eu não matei Pam Loretti, a Miss simpatia. Foi tudo uma armação.

Erik: Moça, eu não quero ouvir mais nada. Você está muito encrencada! Vamos fingir que nada aconteceu e nunca nos vimos antes. (vai saindo)

Kid: Por favor, deixa 15 reais pro meu táxi. Estou mais dura que coco.

Erik: Eu não quero me envolver com isso...

Kid: Você já está envolvido, Erik, até o último fio do seu cabelo.

Erik: (num espanto que desfigura seu rosto) Como você sabe o meu nome?

Kid: Eu sei tudo sobre você, Erik.

Erik: O que está acontecendo?

Kid: 15 reais pro táxi, e eu rasgo o mapa!Conto todos os milagres e os nomes dos respectivos santos.

(tempo.)

(Erik tira 15 reais e contrariado paga a moça)

Kid: (guardando o dinheiro no decote) Pam Loretti, a Miss Simpatia, me contratou para te matar. Mas parece que alguém se antecipou e foi ela que acabou sendo assassinada.

Erik: Mas por que Pam faria uma coisa dessas?

Kid: Vingança.

Erik: Vingança?

Kid: Não faz o louco! Você, mais que ninguém, sabia que o casamento de Pam com Bryan era pura fachada!

Erik: Como eu poderia saber?

Kid: Porque você tinha um caso com o marido dela.

Erik: Que absurdo!

Kid: Ela viu tudo ruir quando descobriu que Bryan estava apaixonado por você e disposto a jogar tudo pro alto e assumir o romance publicamente, arruinando a carreira de Pam como símbolo da perfeição coca cola trash luxo. Milhões estavam em jogo e você seria só um pobretão a menos: Carta fora do baralho. Pam precisava tomar uma providência o mais rápido possível e não hesitaria em quebrar os ovos para fazer uma rica omelete! Para isso eu fui contratada, afinal de contas, a Miss Simpatia jamais sujaria suas mãos com gordura barata.
Erik: (tonto com o impacto da revelação) Eu não posso acreditar nisso...

Kid: Pois é, meu bem. A vida é um carrossel desgovernado com cavalos selvagens capazes de tudo a qualquer preço.

Erik: E quem matou Pam?

Kid: Talvez você saiba disso melhor que eu...

Erik: Não sei o que está insinuando...

Kid: (irritada) Ora bolas! Não banca a vítima. Faz um esforço, meu filho.

Erik: Repito: eu não sei onde você quer chegar com isso.

Kid: Bryan.

Erik: O que tem Bryan.

Kid: Você convenceu Bryan a matar Pam. Sua ambição cega e desgovernada fez de Bryan um joguete em suas mãos, capaz de fazer tudo pra ficar com você.

Erik: Isso não é verdade!

Kid: Diz aqui, diz na minha face que você ama verdadeiramente Bryan! Diz!

Erik: Eu amo verdadeiramente Bryan.

Kid: Torpe! O amor em sua boca parece uma ferida pestilenta com uma mosca varejeira agonizante pousada em cima. Seu amor é como uma grande bola de pus, que precisa ser atravessada por uma agulha quente.

Erik: Eu não permito que você faça juízo de valor do que eu sinto pelo Bryan!

Kid: Pessoas como você, que usam o amor de forma feia e egoísta, se aproveitando da pureza alheia, não merecem um pingo de consideração. Fico pasma em saber que pessoas como você são capazes de despertar um sentimento tão belo e sincero no outro e deformar tudo sem o mínimo de dignidade e respeito.

Erik: (digno) O amor tem suas variantes e isso não diminui sua origem. Amo Bryan. E se fiz o que fiz, foi para protegê-lo. Bryan é ingênuo, uma rosa em botão, que murcharia no primeiro raio de sol. Bryan acredita que o amor justifica tudo e que sela o verdadeiro sentido da felicidade. Mas você e eu sabemos que isso não é verdade. Bryan é uma criança que pensa que o mundo cabe numa casquinha de sorvete.

Kid: E por isso você o convenceu que matar Pam, seria a melhor maneira de resolver tudo. Muito mais jogo. Afinal de contas, toda a fortuna seria dele e juntos poderiam desfrutá-la em alguma ilha da América Central.

Erik: Eu só quis poupá-lo de um escândalo desnecessário e para além de tudo eu sabia muito bem do que a miss simpatia seria capaz de fazer. Eu apenas fui mais rápido que ela.

Kid: (enojada) Vocês são tudo farinha do mesmo saco. Pobre Bryan... Aliás, pobre nada. Bem feito. Deve ser uma besta quadrada. Só mesmo uma besta quadrada pra não se dar conta que a piscina em que ele nada anda cheia de tubarões.(reflete) Se bem que quando estamos apaixonados, todos nós viramos verdadeiras bestas quadradas.

Erik: E o que você vai fazer agora, que sabe de toda a verdade?

Kid: (aponta um revólver) Te matar, naturalmente.

Erik: Me matar?

Kid: Sim. Eu fui paga pra isso e costumo levar meu trabalho muito a sério.

Erik: Muito bem, vá em frente. (arrogante) Você pensa que eu vou me humilhar? Eu não vou me humilhar. Pelo contrário: Eu quero que você faça! Faz! Se não fizer eu faço!

Kid: Por favor, não me dê ordens, eu sei muito bem o que devo fazer.

Erik: Pois bem: faça. Mas antes eu queria pedir um último desejo.

Kid: Você não está em condições de pedir nada por aqui.

Erik: Não se nega um desejo para alguém que está pra morrer. Você não pode me negar.

Kid: O que você acha que eu sou, cara? Sua fada madrinha! Você matou a mulher mais simpática do nosso país! Merece desejo nenhum!

Erik: Não fui eu, foi o Bryan!

Kid: Seu canalha, ele fez por você!

Erik: Então você pode realizar esse último desejo por mim, Não é nada demais, é só uma última vontade. Por favor. (sincero) Por favor.

( Kid Suspira)

Kid: Tudo bem. (debochada) Você terá seu pedido realizado, princesa. O que você quer?

Erik: Um beijo.

Kid: Um beijo????

Erik: Um beijo de língua.

Kid: Esquece. Você não me atrai em nada. Se prepara pra morrer!

Erik: Você prometeu!

Kid: Eu te prometi um desejo e não dois.

Erik: Mas foi exatamente o que fiz: um desejo.

Kid: Meu camarada, existem dois desejos: o seu desejo de beijar e o meu de ser beijada. Não vai rolar e fim de papo.

Erik: Um beijo. Por favor. Eu queria só um beijo antes de morrer. Por favor. O último que dei foi tão sem gosto que nem lembro. Afinal de contas você não acorda pensando que aquela quarta feira é a sua última chance com as coisas. E quando você se dá conta, como eu estou me dando conta agora, quando você se dá conta_ percebe que sua última transa foi qualquer nota e que seu último beijo então... Nem se fala. E que você tem se desperdiçado tanto por aí, e se esgotado tanto, a troco de nada... Sem nem valer a pena... Poxa... Dá um vazio, sabe? Uma sensação de autopiedade, horrível. Você se sente um fantasma de si mesmo. Uma casa abandonada por dentro. E tudo o que você quer é um beijo. Um único beijo. Só pra prestar atenção. Só pra perceber que a vida é feita de pequenas eternidades. E que são essas pequenas eternidades que justificam todo o resto...

Kid: (puta da cara) Seu safado! Essa é a fala de Charlote Elizabete, na estação do trem, despedindo-se de Troi Bernard.

Erik: Sim, eu sei: Charlote assume que sua vida foi um erro e que o câncer só veio para finalizar aquilo que outrora já havia sido finalizado. Ela convence Troi a partir para a Capital e realizar seu sonho de ser um advogado renomado, enquanto Charlote havia se desperdiçado naquela cidadezinha cruel e implacável. Charlote só pede um último beijo, e Troi, mesmo sabendo que ela o traía com seu padrasto _ que havia tomado sua mãe como esposa apenas por uma rivalidade antiga, por questões territoriais, agora fazia o mesmo com a noiva do filho_ Mesmo assim, Troi perdoa Charlote e lhe dá um beijo e jura voltar assim que achar uma medula compatível com a dela!

Kid: “Corações sangrando”. Vejo que temos algo em comum.(exibe o livro que acabou de tirar da bolsa) Só que, meu chapa!, eu não sou Troi e você muito menos Charlote. E você vai beijar Jesus lá no céu.

Erik: E quem disse que eu não sou Charlote?.

Kid: Ora! Você está começando a me irritar. (faz que vai atirar)

Erik: (rápido) Espera!!!! Espera!!! Eu sou Charlote! Quer dizer, de certa maneira sim.

Kid: Eu também sou Charlote, todo mundo é um pouco. Isso não faz você melhor que ninguém!

Erik: Não foi isso que eu quis dizer.

Kid: E que diabos você quer dizer?
Erik: Eu quero dizer que eu sei essas falas porque fui eu quem as escreveu.

Kid: Pára a palhaçada! Todo mundo sabe que Kire Osnam é a autora de “Corações sangrando”, e que escreveu toda a coleção enquanto estava sobre o fogo cruzado na Faixa de Gaza, dividindo a casa com mais seis esposas de seu marido, 37 anos mais velho que ela. Agora eu vou te matar com gosto, só por essa profanação ao ícone dos açucarados das bancas de jornal!

Erik: Juro que não estou mentindo. É Kire Osnam quem mente. Quer dizer. Sempre mentiu. Kire Osnam é meu nome de trás pra frente: Erik Manso. Kire Osnam: Erik Manso. Olha. (mostra a identidade) Essa história de Faixa de Gaza e o escarcéu, é estratégia de marketing. Jogada comercial. Vende mais que Erik Manso, um gay que tem um caso com o marido da Miss Simpatia.

Kid: Eu duvido que alguém sensível como Kire, seria capaz de algo tão mesquinho. Kire jamais abusaria do amor por dinheiro.

Erik: Kire não come, não mora e nem bebe, Erik sim.

Kid: (muda o tom) Mas como saberei se está dizendo a verdade?

Erik: Me pergunte qualquer coisa a respeito dos livros. Eu respondo.

(tempo)

Kid: (reflete girando o revólver no ar) Ok. Em “Desejo e constatação”, Qual era a profissão do órfão Andrew antes de se casar com Eleonora e descobrir que o pai dela havia matado o seu?

Erik: Coveiro. Seu pai, teria sido o primeiro que ele havia enterrado, jurando vingança contra aquele que o matara.

Kid: Muito bem... Qual era a doença secreta de Lady Cameron em “Aqui se faz, aqui se paga”?

Erik: Cleptomaníaca, no capítulo final ela coloca fogo no próprio corpo, abraçada tudo que havia roubado até então, sussurrando o nome de seu amado, Evan.

Kid: Em “Esqueça o amanhã, amar não vale a pena”, por quem e o que era traficado em bonecas de porcelana para Antiga Iugoslávia?

Erik: Joshua, o falso manco. Traficava passaportes falsos, só que _ correção!_ não em bonecas de porcelana e sim em barras de chocolate. E a Iugoslávia já havia se dividido em Sérvia e Montenegro. Daí a falha trágica, Joshua, não sabia para onde ir com os passaportes.

Kid: (maravilhada, abraça Erik. Um abraço muito apertado e emocionado) Kire!!

(ficam abraçados por um tempo enquanto ela fala)

Kid: (consternada) Quantas e quantas vezes eu pensava em desistir de tudo, em chutar esse maldito balde e eu lia você e percebia que do outro lado, sim, lá do outro lado havia um alguém com as mesmas inquietações que as minhas... (se recompondo) Desculpa, fiquei cafona. Não acontece sempre. É que não é todo dia que se encontra uma celebridade e hoje foi um dia atípico eu encontrei com duas: uma morta e uma que eu deveria matar! (ri gostoso)

Erik: Eu não fazia idéia de que meu livro estava sendo lido por uma pessoa tão interessante.

Kid: (encabulada) Ai, imagina! Tenho todos. Meu sonho era conhecer você! Comecei lendo meio que por acaso e agora não perco um. Inclusive achei uma pena que no último livro, Troi não tenha voltado pra ficar com Charlote Elizabete. Ela morreu sozinha achando que ele voltaria. Achei muito triste.

Erik: É tudo meio baseado na minha relação com o Bryan e a Pam, entende? O nosso amor é como essa medula que nunca chega...

Kid: Ah... Mas você bem que poderia ressucitar Charlote Elizabete no próximo livro, porque se pensar bem, ela não...

Erik: (corta) Vejo que você gosta mesmo desse gênero. Mas é que eu estou meio com pressa, não me leve a mal. Eu queria saber se você ainda vai me matar?

Kid: Eu deveria, pois você continua sendo o mesmo escrotinho ambicioso que convenceu seu amante a matar a própria esposa. E para além de tudo destruiu a minha referência de doçura em tempos duros. (muda o tom) Mas, justamente, em consideração a Kire Osnam, e a tudo de belo que ela já despertou em mim , é que eu vou poupá-lo e deixar que a vida se encarregue de fazer o que deve ser feito.

Erik: Obrigado. Muito obrigado.

Kid: Não agradeça a mim, agradeça a Kire, que aliás, ela sim, deveria ser a nossa miss simpatia.

(Erik vai saindo)

Kid: Espera. Tem mais uma coisa.

(ele estanca)

Kid: Me dá um autógrafo? (estende o livro sorrindo)


Fim.

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GRIFES BAJULAM “VIPS” COM BRINDES E SERVIÇOS

Marcas dão viagens, noites em hotéis e presentes para quem gasta mais

FOLHA DE SÃO PAULO – ESPECIAL DIA DO CONSUMIDOR – SÁBADO 13 DE MARÇO

Jo Bilac

“Vip”

Mendigo

Marielle Moom

(Marielle Moom saindo de uma festa badaladíssima)

Marielle: ( taça de prosecco na mão, casaco de luxo. Acorda o mendigo que dorme no chão. ) Oi querido. Olá. Oi. Querido. (insiste, mas o mendigo ainda dorme e não quer papo) Oi. Meu anjo. Queridinho. Oi. Acorda. Meu anjo. Acorda, querido. Oi. Ei. Olá. Opa. Acorda.

Mendigo: (levanta sonolento) Desculpa madame, eu dormi na vaga do carro da senhora, né? Já to saindo, é que a marquise estava cheia e...

Marielle: (simpática) Não, não, não... Não se incomode, imagina!

Mendigo: Eu saio, madame, não tem problema. A senhora pode estacionar o carro aqui, eu vou pra ali debaixo do viaduto e...

Marielle: Não, que viaduto, o que? O senhor pode dormir tranquilamente na vaga do meu carro. Por favor.

Mendigo: Eu não quero causar incômodos...

Marielle: Eu faço questão! Não é incomodo algum, fica a vontade.

(Marielle, débil, parada, sorrindo para o mendigo)

Mendigo: Então...?

Marielle: O que?

Mendigo: A madame vai ficar aí parada rindo pra mim?

Marielle: Madame? Não! Vamos evitar formalidades! Marielle Moom.

Mendigo: Como..? Marie...O que?

Marielle: (como se tivesse falando com um retardado) Ma-ri-e-lle...

Mendigo: Ma-ri-e-lle...

Marielle: Moom...

Mendigo: Muuu.

Marielle: Moom.

Mendigo: Muuu.

Marielle: (desiste) Enfim. Qual é o seu nome, querido?

Mendigo: Mendigo mesmo.

Marielle: Prazer, Mendigo Mesmo. Bom. Eu vou direto ao assunto, sem mais rodeios. Eu acabo de voltar de uma festa badaladérrima, creme de La creme, papa finérrima, coisa que você nunca vai ver! Enfim. Daí, quando vou estacionar o meu porche, vejo você aqui, dormindo ao relento, sem a mínima dignidade, mas em profunda paz e isso me tocou. De verdade. Fiquei comovida. Pensei nesse mundo louco que gente vive, sabe? Essa coisa louca, de muitos que não tem nada e poucos que tem tudo. E daí fiquei pensando na Madre Teresa, no Mandela. Mandela é um cara que me emociona até hoje. Um cara fora de série. A história de vida do Mandela. Eu não posso nem falar no Mandela que eu fico com olho cheio d’água, emocionada mesmo. E daí fiquei pensando: caramba, Marielle! O que você está fazendo da sua vida? Cara, o Mandela na sua idade já...

Mendigo: Desculpa interromper, madame, é que eu...realmente, estou muito cansado, amanhã pego logo cedo no lixão e...

Marielle: No lixão! Que coisa linda! Lixão! O chorume do lixão! É o povo brasileiro que não se cansa e nem desiste, dessa gente que balança e que...

Mendigo: Madame, desculpa mesmo, mas realmente.

Marielle: Ai, perdão! Eu aqui falando feito matraca. Louca! (ri)

Mendigo: Então?

Marielle: Então que eu queria te dar uma esmola.

Mendigo: Uma esmola.

Marielle: É. Uma esmola. Algo simbólico. (abrindo a bolsa, assinando um cheque) Nada demais, um mimo! 3 mil, está bom?

Mendigo: Não.

Marielle: Não está bom? Quer mais? Tudo bem, 4 mil.

Mendigo: (digno) Não, obrigado. Eu não quero.

Marielle: Como assim?

Mendigo: Não me leve a mal, mas eu não estou precisando. Obrigado.

Marielle: O que foi? Achou 4 mil pouco?

Mendigo: Imagina, madame. Eu é que não quero mesmo. Obrigado, viu.

Marielle: Você sabe meso jogar, rapaz. Tudo bem, 5 mil.

Mendigo: Não madame. Obrigado. Muito mesmo. Boa noite.

Marielle: O que há? Você não é mendigo? Não passa fome? Não passa frio? Então, esse dinheiro vai te ajudar. É de coração, eu sou rica, eu posso te dar, não vai me fazer falta.

Mendigo: Eu gosto de passar fome, de passar frio. Eu gosto.

Marielle: E o velho barreiro? E a cola de sapateiro? E o crac? Como é que vai comprar? Hein? Aceita, vai! Não custa nada! Aceita!

Mendigo: Não quero.

Marielle: Já sei. Dinheiro não te interessa, não é? Você é ambicioso rapaz! Gostei de você! Você tem fibra! Quer jóia, não é? Eu te dou as minhas jóias! (tirando os brincos, relógio, etc e jogando pro mendigo) Leva as minhas jóias! Toma! É ouro! Tem brilhante! Tudo seu!

Mendigo: Não quero... Eu só quero dormir, madame!

Marielle: Meu dinheiro não é bom o bastante pra você? As minhas jóias? Eu não sou digna o suficiente? É isso? Não estou a sua altura?

Mendigo: (tranqüilo) Não, não é nada disso. Olha, você é ótima, eu é que estou noutra fase. Eu quero dar um tempo, repensar meus valores, saber se é realmente isso que eu quero. Me entende?

Marielle: Você tem outra? É isso? Pode falar. É outra madame que te dá esmolas melhores, não é? Fala!

Mendigo: Não tem outra madame...

Marielle: Então é o que? O meu porche! Você quer o meu porche, não é ? É isso que você quer, desde o inicio. Faz parte do seu jogo!

Mendigo: Jogo?

Marielle: Sim! Isso é um jogo !

Mendigo: Não tem jogo algum, madame.

Marielle: Se pensa que pode me jogar pra escanteio está muito enganado! (saca um revólver da bolsa)

Mendigo: (apavorado) O que é isso, madame?

Marielle: Um assalto ao contrê!

Mendigo: Um assalto o que?

Marielle: Ao estilo francês, ao contrê!

Mendigo: Calma, a madame está alterada...

Marielle: (falando como marginal) Perdeu, maluco! Perdeu! Pega a minha bolsa, bora! Pega ! Bora! Quer levar pipoco? Então, meu irmão, pega a bolsa! Bora!

Mendigo: (pegando a bolsa, amedrontado)

Marielle: Isso... Agora o bracelete! Bora! Pega o bracelete, isso, coloca no bolso, no bolso! Os brincos, agora! Bora! Não banque o engraçadinho ou eu estouro os seus miolos!

Mendigo: Calma, madame...calma!

Marielle: Bora! Bora! A chave! (joga a chave) Pega a chave!

Mendigo: Peguei, pronto, calma.

Marielle: Agora vai lá e pega o porche e sai varado! Bora, rapá! Bora!

Mendigo: Mas eu nem sei dirigir, madame!

Marielle: Se adianta, meu irmão! Se adianta! Bora! Pega o carro! Bora!

Mendigo: To indo, to indo! (saindo com a chave)

Marielle: (feliz, satisfeita) Mandela... Tá vendo? Se cada um fizer a sua parte, esse país vai pra frente!

Fim.

3 comentários:

  1. Os textos são disponibilizados para montagens amadoras?

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  2. Mas que máximo !!! Disponibilizar esse banco de textos vou compartilhar com alunos do profissionalizante da CAL e do Bacharelado em Artes Cênicas da Faculdade Cal , parabéns ao talento de Jo Bilac !

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  3. Boa noite! Os textos são liberados para montagens? Se não, com quem eu converso a respeito dos direitos autorais?

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